Título: Para Gonçalves, política fiscal está entregando mais que o prometido
Autor: Villaverde, João
Fonte: Valor Econômico, 19/05/2011, Especial, p. A16
Valor: A economia está desaquecendo?
José Francisco de Lima Gonçalves: Está sim. É a velocidade do desaquecimento a grande dúvida, mas ainda não temos indicadores mais robustos sobre isso. Os sinais de crédito, por exemplo, mostram essa dificuldade. A concessão de crédito por dia útil em março, que teve o feriado do Carnaval, foi maior que em fevereiro. Isso diz que a demanda por crédito está bombando ou que o Carnaval fez as pessoas usarem cartão de crédito e cheque especial? Depende da visão do analista. Há sim uma desaceleração, embora não seja forte como muita gente, inclusive eu, esperava, mas ela está acontecendo. Não vamos crescer 4%, mas menos [o Fator estima 3,4%].
Valor: A política fiscal tem participação nesse desaquecimento?
Gonçalves: Claro, a política fiscal está entregando mais que o prometido, vamos ver se continua assim. O mês de abril é quando, tradicionalmente, o governo faz um superávit primário maior do que nos outros meses. Estamos esperando R$ 11 bilhões [de primário], o que mostraria um crescimento importante em relação aos R$ 9 bilhões contingenciados em março.
Valor: Este será então um ano de aperto?
Gonçalves: Qualquer governo que assume "perde" o primeiro ano apertando a situação herdada do governo anterior, seja ele qual for. Goste ou não, o horizonte da política fiscal não é 2011 ou 2012, mas 2014, quando tem eleição. Ele vai fazer estripulia fiscal em 2011? Não. O governo não vai ter a tentação de ser criativo no lado fiscal simplesmente porque as condições estão colocadas para um aperto maior. O que tenho mais preocupação não é o lado fiscal, mas como o governo vai fazer para aprimorar a infraestrutura.
Valor: Como o sr. vê o papel do BNDES?
Gonçalves: É muito importante, e não só para infraestrutura. Como em praticamente todos os mercados mundiais, o mercado brasileiro ainda tem a necessidade de o governo ajudar ou abrir caminho para o investimento privado. Não somos um país desenvolvido, ainda somos emergentes, e, por isso, ainda precisamos de instrumentos de países emergentes.
Valor: A inflação ameaça romper a meta superior perseguida pelo Banco Central. A inflação é de demanda?
Gonçalves: Ao longo do tempo, o peso dos diversos componentes da inflação muda. Há sim um componente de demanda, que, aliás, é muito forte. Ele é claramente oriundo do aumento da renda. Mas nos últimos três meses houve uma reversão na curva ascendente da massa real de salários. O rendimento real está caindo justamente porque a inflação é maior. A grande dúvida é: será que as negociações de salários vão repor? Os sinais são de que conseguirão. O trabalho contra a inflação, por meio das macroprudenciais, inclusive, continuará.
Valor: Nos últimos anos, conseguimos combinar crescimento elevado com inflação sob controle. Este período acabou?
Gonçalves: Acabou exatamente na passagem de 2010 para 2011. Acabou a era em que as commodities se valorizavam e o Brasil ganhava muito com isso. Fazíamos um enorme superávit comercial, e a partir dele juntamos reservas internacionais, que foram usadas para saldar as dívidas com o exterior. O Brasil pagou a dívida e virou credor externo porque teve cinco anos com exportações fabulosas para a China. Ao mesmo tempo, esse movimento veio acompanhado da valorização do câmbio, o que evitou a importação do aumento de preços das commodities.
Valor: Essa era acabou porque o câmbio não se valorizará mais?
Gonçalves: A valorização do real ocorreu até o momento em que abaixo de certa taxa de câmbio gera problemas na economia. Uma valorização adicional traria menos inflação? Traria. Mas traria também uma ameaça muito grande sobre a nossa capacidade de continuar exportando e de domesticamente concorrer com importações mais baratas. Ou seja, chega num nível de câmbio que ele passa a ser visto não como benefício para reduzir a inflação mas como algo que atrapalha a estrutura da indústria prover a oferta que precisamos para evitar aumento de preços.
Valor: Muitos analistas entendem que o câmbio apenas mascara o "custo Brasil". O sr. concorda?
Gonçalves: Sempre que o câmbio se valoriza muito, uma série de analistas começa a destacar que há "custo Brasil", que os impostos são altos, a infraestrutura é ruim, a mão de obra é cara, e é gozado que são coisas que todo mundo sabe que não são resolvidas de uma hora para outra. É uma simplificação ruim isso [de apontar o "custo Brasil"]. Falam que a culpa é do governo porque se ele fizesse superávit fiscal grande você poderia desvalorizar a moeda. Qual é o tamanho do superávit necessário para desvalorizar a moeda? Algo como 30% do PIB? Isso não existe, não vai acontecer em lugar nenhum. Os assalariados não querem um superávit grande. Na hora em que as pessoas entenderem do que isso se trata, elas não vão querer. Então, em vez de falar em soluções mágicas e deixar o câmbio flutuar, vamos acompanhar sim os problemas crônicos, mas que há uma questão a ser resolvida no câmbio isso não se discute.
Valor: O governo tem instrumentos para agir no câmbio?
Gonçalves: Claro, e acho que já vem fazendo bastante nesse front. Desde outubro do ano passado, pelo menos, vem atuando com elevação do IOF. Alguns podem dizer que taxar capital estrangeiro não funciona tanto, mas vimos que a velocidade da valorização diminuiu e a volatilidade aumentou, então o câmbio passou a ser um mercado mais arriscado. Uma parte boa de quem especulava com o câmbio começou a ver que há um pouco de risco agora. Porque antes não havia risco nenhum, era uma barbada. O investidor entrava com aplicações em juros numa determinada taxa de câmbio e depois de alguns meses embolsava os gordos juros que o governo paga e ainda ganha a valorização do câmbio do período. O melhor negócio do mundo. Hoje tem um risco aí, que é o IOF.
Valor: Mas o aumento dos juros não compensa o IOF?
Gonçalves: Pois é, mas aí é uma sinuca que qualquer governo no Brasil teria de enfrentar. Não é uma questão de opção deste governo. Essa valorização tem dois componentes muito claros: uma é incontornável, que é a diminuição do poder americano, o que enfraquece o dólar, e outro que é induzido pelo próprio governo dos EUA, por meio da política do Fed. Assim como o Fed tenta induzir desvalorização do dólar, o governo brasileiro pode fazer o mesmo, é legítimo.
Valor: Por que o juro no Brasil é tão alto?
Gonçalves: Porque desenvolvemos até o limite do limite a indexação. Temos ativos financeiros indexados à dívida pública que, por sua vez, é predominantemente indexada. O Brasil ainda é um país de duas moedas: a moeda dos ricos e a moeda dos pobres. O rico é o que tem acesso a aplicações em DI e fundos múltiplos. O pobre não, é o que só tem a poupança. Temos parte enorme da nossa dívida interna que é indexada ao IPCA e outra à Selic. Então, enquanto não resolve esse problema não adianta pedir para as pessoas desindexarem.