Título: Rumos da política econômica dividem analistas
Autor: Villaverde, João
Fonte: Valor Econômico, 19/05/2011, Especial, p. A16

De São Paulo A economia brasileira está desacelerando, e o Produto Interno Bruto (PIB) deve crescer 4% ou menos em 2011. Essa avaliação, no entanto, parece ser o único ponto de consenso entre Gustavo Loyola, sócio-diretor da Tendências Consultoria, e José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator. De um lado, Loyola critica a atuação do governo na tentativa de frear o aquecimento econômico, deixando claro que uma atuação mais agressiva do Banco Central (BC), órgão que ele já presidiu, seria mais eficiente. Já Gonçalves avalia que medidas como a elevação do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) na entrada de capital externo e as políticas macroprudenciais do BC foram positivas e devem ser ampliadas.

Em conversa com o Valor em São Paulo, ambos divergem quanto à trajetória do câmbio (e o papel do governo na formação de preços), a alta da inflação e a política fiscal.

"Eu, se estivesse no BC, teria feito uma alta de juros mais agressiva do que a feita pelo Tombini", diz Loyola, em referência à política adotada por Alexandre Tombini, presidente do BC desde janeiro. Segundo Loyola, a atuação do BC deve focar o controle da inflação, que é "o grande risco enfrentado pelo país hoje", deixando a definição da taxa de câmbio para o mercado.

Já Gonçalves avalia que "em vez de deixar o câmbio flutuar", governo e analistas deveriam entender que "há uma questão a ser resolvida no câmbio, e isso não se discute". Para ele, assim como o Fed (banco central dos EUA) tenta induzir a desvalorização do dólar, "o governo brasileiro pode fazer o mesmo, é legítimo."

A julgar pela formação acadêmica, deveria haver mais confluência entre Loyola e Gonçalves. O primeiro é doutor em economia pela Fundação Getulio Vargas em São Paulo (FGV-SP) e o segundo é doutor pela Unicamp. As duas universidades caracterizam-se pelo pensamento desenvolvimentista, mais antenado com as ideias de John Maynard Keynes, que defendia intervenção do Estado na economia.

Gonçalves participou da Secretaria do Tesouro Nacional entre 1986 e 1987, quando ajudou a fechar a "conta movimento" do Banco do Brasil (BB) e a aprimorar a administração da dívida pública. Depois foi assessor econômico da Fazenda, na gestão de Zélia Cardoso de Mello (1990-91), com quem rompeu ainda durante o governo de Fernando Collor.

Loyola ocupou diretorias do BC entre 1991 e 1993, antes de suceder Pérsio Arida na presidência da instituição, entre maio de 1995 e agosto de 1997. Foi durante sua gestão que o Comitê de Política Monetária (Copom) foi criado e também quando o BC administrou a falência de bancos privados, como o Nacional e o Econômico, por meio do Programa de Estímulo à Reestruturação (Proer). Leia abaixo trechos das entrevistas.