Título: Vale tudo para a troca do voto
Autor: Cipriani, Juliana
Fonte: Correio Braziliense, 15/08/2010, Política, p. 7

Eleitores fazem todo tipo de pedidos esdrúxulos aos candidatos: desde emprego e dinheiro até dentaduras e plástica nos seios

Belo Horizonte Conseguir um emprego, uma plástica nos seios, dinheiro para fazer festa de casamento, aniversário de 15 anos e até limpar o seu nome na delegacia da cidade. Algo que se pede a amigos próximos ou parentes, de quem se espera todo empenho para dar aquela mãozinha, certo? Nem sempre. Para vários eleitores do interior e até da capital de Minas Gerais, o pedido também pode ter como destinatário os deputados federais e estaduais, principalmente agora que eles dependem do voto para conquistar um novo mandato eletivo. Do outro lado, para não serem enquadrados na legislação eleitoral, que proíbe a troca de favores, os parlamentares precisam rebolar para dizer não sem perder a preferência nas bases.

Em tempos de campanha, as saias justas são muitas. Quando chegam aos redutos eleitorais, os parlamentares acabam ouvindo cobranças inusitadas. O deputado estadual Antônio Júlio (PMDB-MG) preferiu fechar o escritório político no período eleitoral para evitar constrangimentos. As pessoas pedem de tudo. Festa de casamento, de 15 anos, bolsa de estudos Já teve uma eleição na qual um cara queria que eu lhe conseguisse uma linha de ônibus na região, com quatro ônibus para operar. Eu teria que montar uma empresa, diz.

Ainda na categoria das demandas absurdas, o peemedebista diz ouvir de tudo, até mulheres que querem uma cirurgia de redução da mama. Como é difícil conseguir pelo Estado, elas pedem para agilizar o processo. Outro dia me pediram para pagar um implante de seis dentes. Apesar da proibição da legislação eleitoral, os parlamentares contam que interpelações como essas são muito comuns. Mas Antônio Júlio diz tirar de letra. Sei como dizer não, e explico as limitações da lei eleitoral, afirma o parlamentar.

No norte de Minas, o deputado estadual Gil Pereira (PP) é outro que tenta escapar das abordagens. Outro dia, passando na rua, um senhor me parou e queria que o ajudasse. Ele tinha uma arma ilegal, que foi apreendida pela polícia, e ficou com o nome sujo, disse que não estava conseguindo trabalho. Veio achando que eu poderia resolver seu problema e falei que não, que ele deveria se encaminhar a um advogado.

Nas áreas mais pobres não faltam problemas para os eleitores apelarem para os deputados. Gil Pereira conta que já recebeu muitas mães solicitando ajuda para a educação dos filhos. Querem trabalho, dentaduras, bolsas de estudo. A gente fica muito condoído, porque vê que a pessoa precisa de ajuda. Temos que explicar que nosso papel é legislar, fiscalizar e encaminhar as demandas ao poder público, diz.

Crime A atitude de levar pedidos de ajuda para candidatos, vista como inocente ou comum por quem pratica, pode levar o eleitor a cometer um crime. Pela legislação eleitoral em vigor, não é só o político que pode ser enquadrado se oferecer ou prometer bens em troca do voto. Aquele que pede favores está praticando corrupção passiva. A pena para quem for flagrado em uma das situações é de um a quatro anos de prisão.