Título: Decisão fácil no Copom, sinalização nem tanto
Autor: Campos, Eduardo
Fonte: Valor Econômico, 06/06/2011, Finanças, p. C2
O destaque da semana fica por conta do encontro do Comitê de Política Monetária (Copom). E ao contrário do observado na reunião passada, quando havia dissenso sobre alta de meio ponto ou redução de ritmo, tanto o mercado quanto os economistas vão bem afinados para essa decisão.
A expectativa é de que o encontro da quarta-feira termine com uma nova alta de 0,25 ponto percentual na Selic, que passa de 12% para 12,25% ao ano.
Atenções voltadas ao comunicado, que já pode dar algum subsídio às discussões que se iniciam sobre se teremos mais uma, duas ou nenhuma nova alta na taxa básica de juros. As argumentações ganham mais fundamentação com a publicação da ata da reunião na quinta-feira da próxima semana.
Olhando a curva futura de juros, o que se vê é um mercado posicionado para duas elevações de um quarto de ponto. Cabe lembrar que tal expectativa foi formatada depois da decisão e da ata de abril e vem sendo respeitada, algo que fica evidenciado pela baixa oscilação nos contratos futuros de curto prazo.
Por ora, a fatia de mercado que defende novas altas aponta que o Banco Central (BC) não deve se pautar pela melhora da inflação do curto prazo, pois nada garante que os preços ficarão assim bem comportados.
Fora isso, esses agentes avaliam que a atividade ainda não mostra sinal firme de desaceleração.
Para os partidários de mais uma alta e fim de ciclo, todas as medidas já tomadas ainda não estariam mostrando seu efeito sobre inflação e demanda.
Aqui entram as medidas prudenciais de dezembro, o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre crédito de abril, e o aperto de 1,25 ponto percentual já realizado na Selic.
Para esse grupo foi possível identificar sinais da eficácia desse mix de políticas no Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre apresentado na semana passada.
O componente avaliado é o consumo das famílias, que mostrou alta de 0,6% depois de registrar um avanço de 2,3% no último quarto de 2010. Claro que a inflação mais elevada tem peso nessa desaceleração, mas há quem veja nisso efeito das medidas prudenciais e da contenção de gastos do governo, que está entregando a economia que prometeu.
Para esse grupo, o PIB do segundo trimestre será bem menor do que o avanço de 1,3% registrado na abertura do ano.
Além das considerações acima, a cena externa também está na pauta de discussões do BC. E só para variar um pouco, a incerteza é tremenda.
A probabilidade de reversão do processo de recuperação das economias desenvolvidas, notadamente dos Estados Unidos, parece ter voltado à pauta. Embora a piora recentes dos indicadores nos EUA possa ser apenas uma acomodação.
Ao mesmo tempo, o preço de algumas matérias-primas mostrara resistência à queda, o que poderia manter a avaliação do colegiado de influência ambígua do quadro externo sobre os preços domésticos. Se bem que o índice de commodities calculado pelo próprio BC, o IC-Br, já caiu 6% do pico registrado em março.
Também em pauta o intermitente risco de default de países periféricos da zona do euro. Maio foi marcado pelo aumento da desconfiança, que cedeu nos últimos dias conforme Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Central Europeu (BCE) e União Europeia (UE) somaram esforços em busca de paliativos, já que solução definitiva ainda não foi encontrada.
Ainda no campo externo, acaba agora em junho o programa de compra de títulos do Federal Reserve (Fed), banco central americano. E o fim do "Quantitative Easing 2", pode promover rearranjo global de ativos ou servir de desculpa para isso.
De volta à agenda, antes da decisão do Copom, os agentes conhecem o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de maio, que deve recuar de 0,77% para algo ao redor de 0,45%. Ainda assim, o índice acumulado em 12 meses seguiria acima do teto da meta de 6,5%.
Também são conhecidos o Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI) de maior e a primeira prévia para o Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M) do mês.
Na agenda externa, foco nas decisões do BCE e Banco da Inglaterra (BoE). Com a novela do endividamento voltando à programação, o juro deve seguir em 1,25% na zona do euro e em 0,5% no Reino Unido.
De volta ao pregão de sexta-feira. O dólar comercial teve novo dia de baixa. A moeda cedeu 0,12%, para R$ 1,576, menor preço desde 2 de maio. Na semana, o preço da divisa americana caiu 1,56%.
No câmbio externo, o euro centrou as atenções, subindo cerca de 2%, retomando a linha de US$ 1,46, maior preço em um mês. Boa vontade com a Grécia e mais dúvidas sobre a economia dos EUA explicam esse aumento de demanda.
Eduardo Campos é repórter