Título: Planalto precisa se articular para evitar novos desastres
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 09/06/2011, Opinião, p. A14
A crise que culminou na demissão do ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, exibiu as fragilidades do governo de Dilma Rousseff e os perigos que ele corre no futuro imediato. Palocci, cacifado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi um dos mais breves ocupantes do cargo nos governos do Partido dos Trabalhadores, uma história de desastres. Dois de seus antecessores foram afastados por condutas incompatíveis com o cargo. José Dirceu, alvejado pelas ações de Waldomiro Diniz, caiu no auge da crise do mensalão e descobriu seus talentos para consultorias após deixar o governo. Erenice Guerra, indicada pela atual presidente, Dilma Rousseff, rivalizou com Palocci na rapidez com que atraiu suspeitas sobre sua conduta. Ela foi sagrada ministra em abril e se demitiu em 15 de setembro, depois de ter montado uma consultoria familiar clandestina em pleno Palácio do Planalto, para proveito próprio. Ao contrário de Erenice, Palocci chegou ao governo depois de desmontar, pouco tempo antes, sua consultoria.
Pela rapidez com que multiplicou seu patrimônio e pela sua concentração nos dois meses seguintes, após ter sido convidado para o cargo, há uma lista razoável de suposições para a origem desse dinheiro, desde tráfico de influência a caixa dois de campanha eleitoral. As agruras de Palocci tiveram o efeito de uma bomba em um governo ainda em busca de um caminho político próprio, tanto de estilo quanto nas relações com sua enorme base aliada.
O caso Palocci quase aleija o governo no exato momento em que a presidente se empenhava em ao menos conter dentro de limites toleráveis a entrega de cargos aos partidos que a apoiam. O endurecimento do governo era algo positivo, mas suficiente para causar enorme mau humor nos políticos aliados. A revanche veio em dose dupla, na votação do Código Florestal e nas denúncias contra o ministro da Casa Civil, principal articulador do governo.
As mazelas da votação do Código ficaram claras após o desastre da votação na Câmara. O governo acordou tarde demais para o assunto, ao qual não deu a devida atenção nem o devido esforço de convencimento. O projeto traz grandes retrocessos e exigiria prioridade dos articuladores políticos que se fiaram na boa vontade dos partidos da base, quando já grassava neles uma insatisfação prestes a irromper. As denúncias contra Palocci, em meio a um importante teste de força do governo no Congresso, colocaram a presidente diante de uma derrota que pode deixar marcas. O PMDB, o maior partido da coalizão, que já acumulava mágoas na divisão de cargos e ocupa a vice-presidência da República, viu repentinamente aumentar sua força relativa, seu apetite por mais fatias no poder e o preço de seu apoio ao governo. Não há dúvidas de que o PMDB e seus aliados querem mudar o eixo do governo e o farão se episódios como o do Código ou da indecisão da presidente Dilma no caso Palocci se repetirem.
A enorme coalizão montada para sustentar Dilma Rousseff, articulada pelo ex-presidente Lula, visava dar uma superproteção a Dilma, que nunca fora eleita para ocupar qualquer cargo público e carecia de bases populares. A votação do salário mínimo, tida como primeira grande vitória da nova coalizão, com o PMDB no barco principal, na verdade não apresentava grandes desafios. O governo aceitou uma péssima fórmula de reajuste do mínimo, que lhe trará dores de cabeça em 2012, em troca da fidelidade das centrais sindicais. Não havia real oposição de nenhum partido importante. Com o Código Florestal, a história era outra, cercada de interesses particulares.
A presidente Dilma parece ter declinado da tarefa de orientar politicamente seus auxiliares, dando mais uma vez a impressão de que prefere se ater a uma gestão técnica. Isso a obriga a escolher uma articulação política mais robusta. A aceitação de cotas petistas para um cargo como o ocupado por Luiz Sérgio foi um grave erro político, assim como dar poderes de superministro a Palocci, por insistência de Lula. É possível que Gleisi Hoffmann, substituta de Palocci, cuide da gestão dos assuntos de governo, mas ainda assim é sabido que a Presidência da República não é um cargo técnico e a presidente, especialmente por suceder veteranos como Fernando Henrique Cardoso e Lula, terá de exercer com gosto todo o papel político que o cargo lhe reserva, sob pena de ver frustradas suas boas intenções. Isso exigirá da presidente muito mais do que ela vem dando até agora.