Título: Palácio culpa Henrique Eduardo Alves por resultado
Autor: Zanatta, Mauro ; Ulhôa, Raquel
Fonte: Valor Econômico, 26/05/2011, Política, p. A9

Brasília

O governo ainda não digeriu a derrota sofrida na votação do Código Florestal na Câmara mas já escolheu um vilão para colocar a culpa pelo resultado adverso: o líder do PMDB na Casa, Henrique Eduardo Alves (RN). Na avaliação de auxiliares da presidente Dilma Rousseff, Alves abandonou o papel de aliado do governo e legislou em causa própria, tentando pavimentar sua candidatura a presidente da Câmara em 2012. "Ele está queimado no Planalto, mas cresceu muito como líder aqui dentro", admitiu um articulador da bancada do PT na Câmara.

A relação de Henrique Alves com o Planalto já estava desgastada desde o ano passado, quando o líder do PMDB votou a favor da emenda Ibsen Pinheiro (PMDB-RS) que propõe a distribuição equânime dos royalties do petróleo independentemente se o Estado é produtor ou não. "Ele agora tornou-se reincidente e a presidente Dilma não gostou nada disso", disse um parlamentar do PT com bom trânsito no governo.

Para o Planalto, além de manter a própria emenda que propõe a anistia para quem desmatou matas nativas até 2008, Alves não se empenhou para derrubar a apresentada pelo deputado Paulo Piau (PMDB-MG), que aumenta o poder dos Estados na legislação ambiental.

O secretário-geral da Presidência, ministro Gilberto Carvalho, tentou desfazer o mal-estar, dizendo que a relação entre o PMDB e o Planalto continua firme. "Um casamento sempre enfrenta problema em algum momento, há momentos de separação e outros de completa afinidade", comparou Carvalho.

Articuladores do PMDB afirmam que colocar a culpa em Alves é uma maneira de "esconder a incapacidade do governo de se articular politicamente". Defensores do pemedebista lembram que, por diversas vezes, ele tentou alertar a presidente Dilma dos riscos de votar uma matéria no Congresso contrária aos interesses da base. "O Planalto cometeu dois erros graves: esqueceu que a bancada ruralista é de sua base, raramente perde, e que o Congresso Nacional é um poder autônomo."

Ao estabelecer uma relação entre o comportamento de Henrique Alves com a disputa para a presidência da Câmara no próximo ano, o que o teria levado a agradar mais à sua bancada que ao governo, o Planalto, na avaliação de pemedebistas históricos, "busca uma desculpa para pavimentar a traição e o rompimento do acordo PT-PMDB, firmado em 2010", disse um aliado de Alves. Esse acordo prevê a alternância na presidência da Casa, primeiro o PT, depois o PMDB.