Título: Ideologia alemã
Autor: Fernandes, Maria Cristina
Fonte: Valor Econômico, 10/06/2011, Política, p. A6
Omisso em público e soberano na intriga privada, o PT oferece em sua página na internet (www.pt.org.br) o primeiro e até agora único pronunciamento oficial de um dirigente partidário sobre a crise na Casa Civil. Antonio Palocci já estava livre para voltar à sua consultoria quando o secretário-geral petista, Elói Pietá, trouxe à lume as razões do partido para não ter apoiado a permanência do ex-ministro.
"Não sair em defesa de Palocci foi uma reação contra o risco de distanciamento do PT em relação à sua base social", diz o artigo. A origem dos ganhos privados, a magnitude dos seus resultados e o alto padrão de vida do ex-ministro foi o que levou o partido, nas palavras de seu secretário-geral, a apoiar - a posteriori - a presidente Dilma Rousseff em sua decisão de tirar Palocci do governo.
Postado no mesmo dia em que o Copom subiu a taxa de juros, o artigo opta por fazer uma análise moral da prática política petista. Historia os riscos a que o PT se expôs ao se apoderar do Estado - "As empresas privadas ajudaram nossas campanhas e procuraram nos aproximar delas" - para dizer que o PT deve voltar às suas origens e manter a "devida distância" do empresariado.
Dirigente do PT diz que vida modesta é condição para o poder
Percorre dois séculos de filosofia política para lembrar a seus correligionários que é a vida que determina a consciência. São as condições materiais de vida dos petistas que moldam suas ideias e ações. E que, por isso, uma vida modesta, ainda que não baste, é "uma das condições indispensáveis para comandar um processo de distribuição da renda e inclusão".
Diz que o progresso material dos petistas deve estar indexado ao bem-estar do povo brasileiro e dá a sentença de Palocci: "O PT prefere o político de vida simples que conhecemos ao empresário muito bem sucedido sobre o qual agora se fala".
Pietá não adianta como a indexação proposta enquadraria palestrantes petistas que cobram R$ 200 mil a hora. Mas talvez por isso mesmo o artigo se preste a fornecer um discurso ao governo que Dilma quer inaugurar agora que sobrou o único dos três coordenadores de sua campanha que escolheu, o atual ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.
Dilma foi atrás de uma neta de alemães, que carrega a brasileiríssima herança de um registro civil com a grafia errada de um homenageado, para afinar o discurso.
Nos três primeiros projetos que apresentou como senadora, a nova ministra chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, antecipou-se ao discurso que agora seu governo ensaia.
São projetos de combate a privilégios de parlamentares e servidores. No primeiro, sugere que se proíba a posse dos suplentes no recesso parlamentar, que acaba lhes garantindo benefícios vitalícios, como plano de saúde custeado pela União. No segundo, propõe a extinção dos 14º e do 15º salários dos parlamentares. "Se a economia não bastasse, ainda há algo mais importante, pois estaríamos conferindo aos membros do Congresso tratamento semelhante ao dado à imensa maioria dos trabalhadores brasileiros, que percebem ao longo do ano apenas 13 salários", justificou Gleisi, em plenário.
O terceiro dos projetos apresentados pela então senadora é a regulamentação do teto para enquadrar o salário do servidor público. Hoje com o acúmulo de aposentadorias, jetons e benefícios, uma casta do funcionalismo nos três Poderes ultrapassa os R$ 26,7 mil do ministro do Supremo, teto constitucional da remuneração.
Por essa leitura, de difícil deglutição por setores do funcionalismo petista, sem combater os privilégios do setor público, o partido não seria capaz de evitar que interesses privilegiados se apoderem do Estado.
Na posse, a nova ministra engatou o discurso do exemplo para mostrar sua afinação com o que a presidente da República parece querer tornar a refundação de seu governo. Citou repetidas vezes a presidente da República como modelo a seguir. E conclui dizendo aos filhos presentes que esperava ser exemplo de vida para eles. Foi um dos raros momentos da cerimônia em que Dilma descontraiu suas feições.
Além da militância em movimento secundarista, a principal convergência da nova ministra com a presidente é a atuação em Pastas técnicas do serviço público. "A política dá sentido à técnica e esta qualifica a política", disse Gleisi na posse, reciclando mote das campanhas que disputou.
Especialista em orçamento, foi secretária, assim como Dilma, num governo estadual (MS) e municipal (Londrina) e também exerceu cargo no setor elétrico (diretora financeira de Itaipu). No Senado, nenhuma das três comissões (Assuntos Econômicos, Agricultura e Relações Exteriores) pelas quais optou tinha o perfil social que costuma pautar a escolha das parlamentares.
Presidente e ministra têm influências intelectuais distintas. No livro "Vozes do Paraná - Retratos de Paranaenses 2", o jornalista Aroldo Haygert, cita como um dos livros que contribuíram para a formação de Gleisi "Deus e a Ciência", do filósofo católico francês Jean Guitton, integrante do círculo do marechal Pétain, que comandou a França colaboracionista.
Durante sua campanha para senadora, Gleisi não apenas advertiu a presidente sobre o peso das alas petistas pela discriminalização do aborto em sua campanha, como gravou um programa sobre suas convicções antiabortistas.
No exercício da Casa Civil, além de buscar convergência com a presidente, terá a oportunidade de mostrar que não é o que leu que determinará o que fará, como lembra o novo ideólogo petista, Elói Pietá.
Ainda que se prenda à gestão, como anunciou, a Pasta é eminentemente política: avalia o mérito, a pertinência e a viabilidade jurídica das políticas e propostas ministeriais submetidas à Presidência.
Ao contrário de Palocci, que já assumiu a Casa Civil condenado a não mais disputar um cargo majoritário, Gleisi tem claras pretensões eleitorais no seu Estado. As ambições políticas da nova ministra não são necessariamente incompatíveis com o exercício republicano do cargo. Palocci está aí para provar. Foi condenado pela segunda vez seguida a interromper sua carreira política por falhar em sua conduta pública, primeiro como ministro e depois como deputado federal e coordenador de campanha. A seguir o que diz o novo ideólogo do PT, o futuro político de Gleisi e, principalmente, de sua chefe, depende do quanto sua ação possa ser universalizada como exemplo. Mais para seu partido do que para os brasileiros.
Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras