Título: PT muda estratégia de atuação com aliados no Congresso
Autor: Lyra, Paulo de Tarso
Fonte: Valor Econômico, 27/05/2011, Política, p. A9

De Brasília

A presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta semana na articulação política do Palácio do Planalto motivou os governistas do PT a readequarem a estratégia de atuação com a base aliada no Congresso Nacional. Definiram três eixos para sua ação a partir de agora: um tratamento diferenciado ao PMDB; maior diálogo com o PR, PTB e PP; e a consolidação da parceria com os partidos situados mais á esquerda, como PCdoB, PSB e PDT.

Na prática, o que está em avaliação é uma retomada de características do relacionamento que Lula teve com os aliados no Legislativo. No primeiro mandato do petista, PR (então PL), PTB e PP foram os parceiros preferenciais. O PMDB foi privilegiado no segundo mandato, quando a aliança com o Planalto se formalizou. E os partidos à esquerda se consolidaram a partir da crise do mensalão. Assim, nos últimos quatro anos de seu mandato, todos estavam juntos do governo, o que auxiliou Lula a governar sem crises no Congresso.

A avaliação é de que é necessária uma recomposição com o PMDB no intuito de conciliar a relação de disputa de poder, tida como inevitável, mas que pode ser feita com parceria, principalmente nas votações mais polêmicas. No caso do Código Florestal, os governistas já avaliam que o governo errou ao não conduzir as negociações desde o princípio com o principal aliado. E que o resultado configurou uma vitória pemedebista e uma derrota do PT.

O receio é que, a partir dessa votação, cada vez mais o PMDB consiga trazer para sua órbita outros aliados do Palácio, como o PR, PTB e PP. E que isso resulte em futuros problemas para o governo. O melhor sinal disso é que os dois vice-líderes do governo desses partidos, Rebecca Martins (PP-AM) e Osmar Serraglio (PMDB-PR), votaram contra o Palácio. Isso a despeito dessas legendas estarem sob o comando de importantes ministérios.

O PR, detentor do poderoso Ministério dos Transportes, dividiu-se com 16 votos para cada lado. O PP "derrotou" o Palácio por 23 a 11. O PTB por 15 a 5. E o PMDB por 72 a 1.

Assim, espera-se que haja uma reformulação no trato com esses partidos. Na próxima semana, devem ser liberados alguns cargos do segundo escalão aos pemedebistas, como a Conab. E a relação com as três outras siglas deve ser "de líder para líder", direta e sem intermediários, também com o atendimento a suas reivindicações. A grande queixa é quanto ao pagamento de emendas parlamentares e a liberação de restos a pagar.

Um retorno no relacionamento nos moldes do que os partidos tiveram com Lula, e que o ex-presidente restabeleceu em sua intervenção no governo nesta semana, é tudo o que os parlamentares querem. Daí porque sua presença em Brasília foi considerada "crucial para acalmar a nação", nas palavras de um líder de uma das maiores bancadas do Congresso.

Segundo o político, o retorno de Lula ao centro do poder, além da garantia de bons tratos aos aliados, conseguiu acalmar o PT. Algo que nem Dilma, nem o ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, e muito menos o das Relações Institucionais, Luiz Sérgio, estavam conseguindo fazer. Isso mesmo antes das denúncias contra Palocci. Depois, então, a situação se deteriorou.

Relações antes já não amistosas entre o líder do governo, Cândido Vaccarezza (SP), e do PT, Paulo Teixeira (SP), estão neste momento piores do que estavam no início, o que acabou por influenciar o resultado da votação do Código Florestal, por exemplo. Como, então, exigir a unidade da base quando nem os petistas se entendem? O entendimento de que as denúncias contra Palocci partiram de dentro da sigla ajudam a corroborar a análise interna.

Os aliados contam e querem a presença de Lula sempre que necessário. E já apontam uma possível missão futura para ele: mediar o acordo de alternância com o PMDB na presidência da Câmara. O PMDB abriu mão, agora, para Marco Maia (PT), e a próxima Legislatura teria na presidência o PMDB, provavelmente com Henrique Eduardo Alves (RN). Depois do seu discurso de afirmação da Casa diante do Executivo na terça-feira, petistas já começaram a falar que a próxima eleição "está longe e tem muita coisa para acontecer até lá", insinuando que o acordo pode ser rompido.

Ocorre que, para o público interno, muito embora a fala de Alves o tenha colocado em situação pessoal difícil com Dilma, há a sensação na Câmara de que ele garantiu sua eleição em fevereiro de 2013. O que pode fazer com que até mesmo a ameaça de rompimento do acordo na véspera do ano da eleição presidencial possa tornar quase impossível a missão de Lula de acalmar a base aliada e seu partido.