Título: A melhora do mercado é uma nova tendência?
Autor: Camba, Daniele
Fonte: Valor Econômico, 30/05/2011, EU &/ Investimento, p. D2

A bolsa começou a semana passada no inferno e terminou bem longe disso. Na segunda-feira, o Índice Bovespa fechou o pregão em 62.345 pontos, o menor nível do ano e também desde julho de 2010. Já na sexta, o indicador estava em 64.294 pontos e acumulava um ganho na semana de 2,71%, o maior desde a semana entre os dias 14 e 18 de fevereiro.

Essa recente melhora animou os investidores, que tanto aguardam um movimento mais longo de alta para ter algum ganho em suas carteiras. Faltando um mês para terminar o primeiro semestre, crescem as expectativas - ou torcida - de que a bolsa suba na segunda metade do ano e compense as perdas acumuladas até agora, que são de 7,23%.

Apesar das corretoras estarem começando a rebaixar as suas projeções do Ibovespa para o fim do ano, as novas estimativas, em média entre 75 mil e 80 mil pontos, mostram que o segundo semestre reserva ganhos aos investidores, e longe de serem magros.

Considerando o fechamento de sexta-feira, que ainda não é fim de semestre, os 75 mil pontos representam uma alta de 16,65%, que sobe para 24,43% se o índice alcançar os 80 mil em dezembro. No entanto, no ano fechado, os 75 mil ou os 80 mil pontos significam valorizações de 8,22% e de 15,43%, respectivamente.

Entre os analistas de mercado que esperam um segundo semestre benigno para a bolsa existe em comum a ideia de que grande parte dos fatores negativos externos e locais já está embutida nos preços dos ativos.

"O mercado só irá chegar a níveis muito menores se surgirem fatos suficientemente negativos, o que não se vê no radar por enquanto", diz o economista-chefe da Way Investimentos e professor de finanças da ESPM-RJ e do Ibmec-RJ, Alexandre Espírito Santo.

Além dos fundamentos macro e microeconômicos já se refletirem no mercado, é no mínimo arriscado apostar em novas quedas. Tecnicamente, a bolsa tem muito mais espaço para subir do que para cair. "Os corajosos, que continuam vendidos (vender sem ter o papel) podem passar por maus bocados vendo as ações começarem a subir a qualquer momento", diz o professor. Ele lembra que ainda existe uma quantidade significativa de vendas a descoberto, o que revela uma certa descrença com relação a uma possível recuperação.

A ideia de que a alta da semana passada pode ser o início de uma nova tendência está longe de ser consenso. Existem profissionais bem pouco otimistas. O estrategista para América Latina da banco WestLB, Roberto Padovani, é um deles. Ele acredita que há motivos de sobra para o Ibovespa fechar o ano entre 60 mil e 65 mil pontos, o que significa uma queda, já que o indicador começou janeiro na casa dos 69 mil pontos.

Na visão dele, o fator que mais contribui para esse cenário é a mudança da política monetária americana, com o fim do pacote de liquidez e o início da alta de juros, que deve ocorrer no ano que vem. "Nada disso é bom para a bolsa e nem está refletido nos preços dos ativos", diz Padovani.

Daniele Camba é repórter de Investimentos