Título: Liquidez é a qualidade que sobrou ao dólar
Autor: Campos, Eduardo
Fonte: Valor Econômico, 16/06/2011, Finanças, p. C2
Em momentos de grande incerteza como o atual, a última notícia é a que vale. E como ontem a Grécia não ajudou, assim como os Estados Unidos, o dia foi de forte ajuste no preço dos ativos. Bolsas e commodities afundaram e o dólar e os títulos da dívida americana subiram com força.
Interessante que os participantes de mercado mostram algum receio em chamar esse movimento de "fuga para qualidade", bordão que sempre classificou essa estratégia para momentos de incerteza.
Afinal de contas, qual a qualidade do dólar ou mesmo da dívida americana? A solidez da economia e o "risco zero" de calote não são mais verdades inquestionáveis.
A "qualidade" que resta a esses ativos é a liquidez. Ainda mais agora que o euro, que chegou a ser cotado tempo atrás como substituto do dólar como moeda de referência, está sob grave ameaça, resultado de uma falha da união de política monetária e cambial e liberdade no lado fiscal.
Captando essa demanda por liquidez, o Dollar Index, que mede o desempenho da divisa americana ante uma cesta de moedas, subiu 1,61%, para 75,53 pontos, maior patamar desde o fim de maio.
Enquanto os ministros não se entendem sobre como evitar um calote da Grécia, o euro afundou quase 2%, voltando à linha de US$ 1,41. Vale lembrar que no começo do mês a moeda comum chegou a US$ 1,47.
Quantificando o medo do mercado no dia, o VIX, que mede a volatilidade das opções na bolsa americana e é visto com um termômetro da aversão ao risco, saltou 16,76%, para 21,32 pontos, segunda maior leitura do ano.
O mercado local não tem como escapar desses episódios de mau humor.
O dólar comercial subiu 1,13%, maior ganho diário desde 5 de maio, para R$ 1,600, maior cotação desde o dia 27 do mês passado. Na máxima, a cotação foi a R$ 1,607.
No mercado futuro, o dólar para julho ganhou 1,03%, a R$ 1,6065. Para quem gosta de análise técnica, o contrato mira R$ 1,613/R$ 1,615.
Para um gestor, no entanto, esse dólar acima de R$ 1,60 já pode ser visto como boa oportunidade de venda. "Se é fato que esse euro cai mais, os investidores vão comprar o quê?"
O fato, por ora, é que o dólar continua sobreofertado no mundo todo e que seu emissor, os EUA, não apresenta sólida condição econômica. Então, passado os momentos de maior incerteza, o investidor voltaria a buscar rendimento por aqui.
Outra boa indicação de que não se vê uma disparada no dólar é a dimensão da posição vendida do estrangeiro no mercado futuro. O tamanho da "aposta" no real atingiu novo recorde, na terça-feira, a US$ 20,515 bilhões.
Fora isso, lembra esse mesmo gestor, quem ataca a moeda é sempre o investidor local. O estrangeiro vem depois de iniciado esse processo de compra. E, por ora, o local não teria interesse em dólar caro.
Claro que a avaliação muda um pouco de figura se a Grécia confirmar default.
No mercado de juros futuros, os contratos devolveram parte da alta da terça-feira. Afinal de contas, quanto piora lá fora, menor a influência inflacionária por aqui.
Esse mercado pode mostrar variação significativa nesta quinta-feira. Tudo depende do conteúdo e da interpretação da ata do Comitê de Política Monetária (Copom).
Para o vice-presidente de tesouraria do Banco WestLB, Ures Folchini, se o documento trouxer alguma surpresa, será no sentido de um ciclo mais curto de alta de juros.
A discussão segue em torno do termo "suficientemente prolongado", utilizado pelo Copom no seu último comunicado. Para parte do mercado, a expressão é uma indicação clara de que veremos novo aperto de 0,25 ponto percentual na Selic no encontro de julho.
Mas segundo Folchini, há dúvida se o BC considera o começo do ciclo quando fala isso, ou se tal visão passou a valer apenas depois da reunião de abril, quando o termo surgiu no comunicado pós-reunião.
Eduardo Campos é repórter