Título: Corte pode gerar ciclo de investimentos no país
Autor: Ribeiro, Alex
Fonte: Valor Econômico, 17/06/2011, Brasil, p. A4

De São Paulo

Ainda que caia a tarifa de importação de etanol dos Estados Unidos, o Brasil não terá condições de atender em grandes volumes o mercado americano no curto prazo. As sucessivas quebras na safra de cana-de-açúcar estão reduzindo o crescimento da produção de etanol no Brasil, enquanto a demanda interna, incentivada pelas vendas recordes de carros-flex, não para de crescer.

Se for concretizada, contudo, a medida pode significar uma nova onda de investimentos - também de investidores americanos - em usinas de etanol no Brasil, diz Marcos Jank, presidente da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica). A entidade espera que até o fim deste ano o governo federal anuncie um pacote de investimentos para incentivar a construção de novas indústrias. "Mas se essa nova conjuntura de mercado internacional se confirmar, esse ciclo de crescimento tende a ser maior, diz Jank. Segundo projeções da Unica, o Brasil precisa investir R$ 80 bilhões nos próximos 10 anos em novas usinas para atender a demanda projetada de etanol e açúcar no ano de 2020.

"Atualmente, a Califórnia, por uma política ambiental mais forte, só considera a hipótese de usar etanol de cana do Brasil e rejeita o etanol de milho", exemplifica o presidente da Unica.

Se a barreira americana cair, ele vê que o caminho se abrirá para tornar o etanol uma commodity de escala mundial, assim como já é o açúcar. "O que assistimos é uma primeira e importante vitória, embora não possamos ainda afirmar que ganhamos a guerra", pondera.

Ele acrescenta ainda que a queda da barreira é importante para viabilizar economicamente a entrada do etanol brasileiro nos Estados Unidos, mas que há outros fatores que afetam essa competitividade, tais como o câmbio. "O Brasil foi um país de custos baixos. Os preços das terras, insumos, tudo subiu muito. Não somos mais um país barato", diz Jank.

Além disso, ele reconhece que o país não conseguirá ser um grande exportador de etanol no curto prazo. Desde o ciclo passado, o país precisa importar etanol dos EUA, ainda que em volumes pequenos, para fechar a conta de seu abastecimento interno.

A previsão da consultoria Datagro, uma das mais importantes nessa área no país, é de que o Brasil terá que importar nessa safra de cana (2011/12), que vai até abril do ano que vem, ainda mais etanol do que na temporada anterior. A empresa estima a necessidade de trazer do exterior 770 milhões de litros do biocombustível, ante os 455 milhões de litros estimados para o ciclo passado - número que ainda depende da confirmação da chegada de 240 milhões de litros na região Nordeste até o mês de agosto, quando termina a safra 2010/11 na região.

A maior necessidade de importação se deve, mais uma vez, à quebra da safra de cana no Centro-Sul, região que responde por 90% da produção brasileira de cana-de-açúcar. Pela primeira vez em dez anos a safra do Brasil não vai crescer na comparação com a anterior, segundo a Datagro. "Não vemos esse cenário desde a safra 1999/2000", completa Plínio Nastari, presidente da consultoria.

Em abril, quando a moagem começou, o mercado previa que o processamento de cana seria da ordem de 555 milhões de toneladas, praticamente o mesmo do realizado no ano passado. A própria Datagro previu em maio que a safra seria de 554 milhões de toneladas. Mas ontem a empresa reduziu sua estimativa de moagem para 536 milhões de toneladas de cana-de-açúcar no Centro-Sul. O número é 3,2% menor do que a previsão de maio e 3,6% menor do que a safra passada.

O efeito é que a produção de etanol - e de açúcar - deve cair. A Datagro estima recuo dos 24,12 bilhões de litros previstos em maio para atuais 23,24 bilhões de litros. Na safra passada, a oferta foi maior, de 25,3 bilhões de litros.