Título: Investimento brasileiro no país é baixo
Autor: Moreira, Assis
Fonte: Valor Econômico, 01/07/2011, Brasil, p. A4

Para o Valor, de São Paulo

Há um grande descompasso entre o investimento de empresas chinesas no Brasil e o investimento de empresas brasileiras na China. As estatísticas oficiais do Banco Central do Brasil indicam que no ano passado o país investiu US$ 14 milhões no país asiático, enquanto a estrada direta de recursos chineses registrada no Banco Central ficou em US$ 392 milhões. Mesmo se a diferença fosse só essa, os chineses teriam aportado no Brasil 27 vezes mais recursos que os brasileiros por lá no ano passado.

Diferentes estimativas sobre os valores anunciados por empresas chinesas e também o cruzamento de dados do próprio Banco Central, contudo, apontam valores muito maiores para o investimento chinês no Brasil em 2010 - algo entre US$ 11 bilhões e US$ 19 bilhões. O mapeamento dos recursos brasileiros investidos na China, porém, está restrito às informações do BC. Duas entidades reúnem empresas brasileiras e chinesas - Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) e Câmara Brasil-China de Desenvolvimento Econômico (CBCDE) -, mas nenhuma vai além dos dados oficiais para a presença brasileira no país asiático.

A atuação dos bancos estatais na economia chinesa, que financiam as empresas do país que começam a atuar como multinacionais, explica a força do investimento chinês, segundo Sérgio Amaral, presidente do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). "Eles têm bolso fundo. A disponibilidade de recursos na China é enorme, e as empresas, com cobertura do estado, podem fazer investimentos", diz ele.Algumas empresas brasileiras se firmaram no território chinês há pelo menos uma década, mas são poucas as que atuam no país asiático. A Embraco, especializada em refrigeração, foi a primeira delas. Uma joint venture da Embraco com a prefeitura de Pequim foi formada em 1995 para montar uma fábrica de compressores. A fábrica emprega hoje dois mil funcionários e sua capacidade produtiva em 2011 é estimada em nove milhões de unidades, o que representa um terço da capacidade global da Embraco.

Segundo o vice-presidente de operações da empresa, Lainor Driessen, os investimentos no país passaram de US$ 80 milhões desde 2005. "Os planos para os próximos anos ainda estão sendo avaliados, mas devemos fazer a empresa crescer com investimento em novas tecnologias".

A mais nova brasileira a mirar a China é a rede de ensino de idiomas Wizard. A primeira unidade no país foi aberta em novembro de 2009, visando o mercado de 1,3 bilhão de habitantes e o crescimento econômico do país. O grupo Multi, a que pertence a Wizard, investiu inicialmente US$ 4,6 milhões. A previsão para cinco anos é de que o número de unidades chegue a cem, atendendo 10 mil alunos, e que o faturamento da rede cresça US$ 12,5 milhões.

O presidente do grupo, Carlos Wizard, viajou pelo menos uma vez por ano para a China desde 2007, quando começou a negociar com empresários chineses e políticos da cidade de Tianjin, onde a primeira unidade foi instalada com subsídios das autoridades locais. A parceria com o governo também envolve o treinamento de professores da rede pública de ensino na China: a princípio, 800 professores seguem o curso de inglês, mas, em dois anos, esse número deve chegar a dois mil, segundo o diretor de expansão do grupo, Ildefonso de Castro.

"Os chineses têm enorme potencial para aprender inglês. Eles começaram a perceber que para crescer na carreira, o inglês é necessário também na China", diz Lincoln Martins, CEO do grupo e filho do presidente. A Wizard contou com a consultoria de um grupo especializado em fazer o contato entre empresas brasileiras e chinesas. Uma parceria com a universidade americana Brigham Young forneceu professores cuja primeira língua era o inglês e que estavam dispostos a lecionar na China

Um ano e meio depois, a Wizard caminha para a terceira unidade própria na China. A abertura de franquias, modelo consolidado no Brasil, onde há mais de 1200 escolas, é o próximo passo na Ásia, segundo os executivos da empresa.

"O Brasil não é por tradição um país que investe lá fora. Comparado à China, nossos números são ínfimos", diz Tang Wei, diretor-geral da Câmara Brasil-China de Desenvolvimento Econômico (CBCDE). "Mas o tamanho do mercado e a distribuição de renda que começa a ser feita no Brasil abrem portas para empresas que vêm de fora".

Amaral, presidente do CEBC diz que há um segundo grupo de empresas brasileiras atentas ao mercado chinês. "Várias companhias abriram escritórios representativos na China para fazer "reconhecimento de território"". Essas companhias avaliam as oportunidades de negócios que podem acabar se tornando reais. Um exemplo é a BR Foods, que discute com a empresa chinesa Dah Chong Hong Limited uma parceria para distribuição de produtos e processamento de carnes em unidades locais, segundo informações divulgadas pela empresa em março.

Na opinião do diretor-geral da CBCDE, o leque de oportunidades para empresas brasileiras na China é grande. Ele destaca o setor de automação bancária, em que a tecnologia disponível no Brasil pode ser explorada pelos chineses, vinculados à tradição dos bancos estatais. Uma alternativa para o Brasil à forte concorrência da indústria chinesa é o setor de serviços - de qual faz parte a própria Wizard. "A urbanização de grandes áreas trará uma expansão do setor de serviços, onde há muitas possibilidades para empresas brasileiras". (*Texto produzido no Curso de Jornalismo Valor Econômico)