Título: ONU pede gasto trilionário contra aquecimento global
Autor: Moreira, Assis
Fonte: Valor Econômico, 06/07/2011, Internacional, p. A8

Clima : Relatório estima em US$ 1,9 tri o investimento anual necessário

A Organização das Nações Unidas estima que investimentos adicionais de US$ 1,9 trilhão por ano serão necessários na transformação tecnológica da economia mundial até 2050, várias vezes mais do que atualmente, a fim de evitar uma catástrofe ambiental planetária. Somente os países em desenvolvimento precisarão investir US$ 1,1 trilhão a mais por ano em tecnologia verde para satisfazer a maior demanda alimentar e energética, segundo relatório divulgado ontem, em Genebra, pelo subsecretário-geral da ONU, o chinês Sha Zukang.

Nesse cenário, a taxa de investimento nacional precisará aumentar entre 2% a 4% em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) nos países em desenvolvimento, incluindo o Brasil, para descarbonizarem suas economias e poluírem menos. A taxa de investimentos da economia brasileira atingiu 18,4% do PIB no ano passado.

Para a ONU, uma transição energética completa se impõe com urgência para evitar uma catástrofe planetária de primeira grandeza. Diz que a capacidade ambiental para fazer face a atividade humana atingiu seu limite. Metade das florestas desapareceram, os recursos de águas subterrâneas estão esgotadas ou contaminadas, a biodiversidade sofreu enormes perdas e a mudança climática ameaça a estabilidade dos ecossistemas.

Para a ONU, é impossível ignorar o estrago atual causado pela demanda de energia, produção de detritos e poluentes. Estima que, mesmo se a economia mundial não crescer a partir de agora, a utilização dos recursos naturais e a poluição do meio ambiente continuarão por causa dos métodos de produção e dos hábitos dos consumidores atuais.

Defende assim, sem rodeios, uma revisão das regras multilaterais de comércio e de propriedade intelectual, para os emergentes terem flexibilidade de adotar politicas verdes ao longo das cadeias de produção e de consumo.

Sugere que os governos adotem política industrial firme, para adaptação e disseminação de tecnologias pouco poluidoras, levando em conta o conceito de "indústrias nascentes". Isso significa que os governos terão margem para dar subsídios às suas indústrias, garantir crédito e elevar as tarifas de importação a níveis mais altos do que vêm sendo negociados na combalida Rodada Doha, na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Além disso, os emergentes deveriam ter o direito de estabelecer programas de conteúdo nacional na produção para estimular setores específicos da economia, outro tema polêmico de que os países ricos não querem nem ouvir falar.

A ONU explica que modificação nos direitos de propriedade intelectual é essencial para oferecer "acesso especial e diferenciado a tecnologias". Por exemplo, governos e empresas de países em desenvolvimento poderiam ser autorizados a adaptar uma tecnologia, mas começando a pagar os direitos unicamente quando seu utilizador tiver gerado lucros.

O relatório aumentou o custo da fatura da transformação tecnológica. Há três meses, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente projetava necessidades de investimentos de US$ 1,3 trilhão por ano. Para se ter uma ideia, atualmente apenas US$ 100 bilhões são gastos em pesquisa e desenvolvimento visando tecnologias verdes. O investimento na área energética foi de US$ 740 bilhões em 2010, com apenas US$ 70 bilhões para energia renovável.

A questão, como sempre, é quem paga a fatura. A ONU contabiliza os US$ 100 bilhões anuais prometidos pelos países desenvolvidos, pelo Acordo de Copenhague, que estão longe de ser garantidos, além de financiamentos por instituições multilaterais.

Uma das soluções defendidas é que, a partir de uma reforma financeira internacional que dê fôlego aos emergentes, os países não precisarão acumular tantas reservas internacionais e poderão usar parte dos recursos para investimentos de longo prazo na economia verde. A ONU calcula que hoje vários países em desenvolvimento têm boa parte de sua poupança como reservas internacionais, que têm sido amplamente investidas em ativos financeiros nos países desenvolvidos no ritmo de mais de US$ 500 bilhões por ano.

O relatório insiste na importância de uma "revolução verde" na agricultura, que hoje responde 14% das emissões de gases. Diz que a redução de riscos de catástrofes implicará mudanças no conceito de estabelecimentos humanos e de infraestrutura.