Título: Impasse sobre resgate grego aponta para reforma do euro
Autor: Moreira, Assis
Fonte: Valor Econômico, 13/07/2011, Finanças, p. C8

De Genebra

A incapacidade das autoridades europeias de definirem um novo pacote de ajuda para a Grécia, e o fato de economias maiores como Espanha e Itália estarem sendo empurradas ainda mais para a crise, podem marcar o início do fim da zona euro na sua forma atual, acreditam analistas.Os crescentes sinais de contágio indicam que mesmo se os problemas da Grécia forem atenuados, podem não ser suficientes para evitar o aprofundamento da crise da dívida soberana iniciada em 2009. Uma solução para a Grécia dificilmente poderá ser usada para a Espanha e Itália, concordam economistas.

No caso da Grécia, um novo ponto de atrito parece ser a insistência de vários bancos de que uma proposta de rolagem da dívida seja acompanhada por alguma forma de recompra dos papéis pelo governo do primeiro-ministro Georges Papandreou.

Isso é visto como o reconhecimento de que formas temporárias de assistência - como o pacote de socorro ou extensão do prazo de pagamento da dívida - para dar tempo a Grécia para voltar a crescer são insuficientes.

A ideia em discussão entre autoridades europeias é de que a União Europeia, ou a própria Grécia, usando fundos europeus, compre títulos da dívida grega no mercado por um preço ligeiramente acima do valor de mercado e, portanto, bem abaixo do valor de face. Com isso, boa parte da dívida grega seria recomprada de volta por um custo bem barato.

Um corte levando em conta a média da relação dívida/PIB da zona euro de 85% poderia custar ¿ 140 bilhões, equivalente a 2% do PIB da união monetária, nos cálculos da consultoria Capital Economics, de Londres.

No entanto, Jonathan Loynes, economista da consultoria londrina, vê enormes incertezas sobre a capacidade desse plano ser efetivado. Primeiro, porque a recompra causa perdas significativas para vários investidores, com potencial de afetar o sistema bancário da zona euro. Além disso, ainda não está clara a reação do Banco Central Europeu (BCE), que continua a rejeitar qualquer forma de default seletivo e favorece rolagem ou restruturação apenas voluntária.

No total, a Grécia estará recebendo mais apoio financeiro do que a Argentina no pior momento de sua crise, com perspectivas incertas. Os créditos prometidos a Atenas chegam a ¿ 230 bilhões, mais de 100% de seu PIB. Além disso, Atenas recebeu ¿ 90 bilhões do Banco Central Europeu, a taxa de juros de 1,25% ao ano. Esse volume de recursos, até agora para salvar o sistema bancário grego do colapso, podem ser insuficientes. Se os gregos retirarem metade de seus depósitos, o BCE precisará emprestar mais ¿ 100 bilhões para manter os bancos funcionando. No total, a Grécia poderá precisar de mais de ¿ 400 bilhões, quase 200% de seu PIB hoje, calcula Daniel Gros, diretor do Centre for European Policy Studies (CEPS), em Bruxelas.

Mais importante ainda, os sinais de contágio alimentam o temor de piora da crise. A dívida da Itália é quase dez vezes maior que a da Grécia, e cortá-la com base na média europeia custaria 10% do PIB da zona euro.

Para o banco francês Natixis, mesmo a desconfiança sobre a capacidade do governo de Sílvio Berlusconi implementar o plano fiscal de ¿ 47 bilhões, quase 3% do PIB, e reequilibrar as finanças públicas em 2014, não justifica o ataque dos mercados ao país atualmente. Nota que, ao contrário de outros países europeus com melhor nota de classificação de risco de crédito, a Itália tem superavit primário desde 1992, diferente de sua crônica instabilidade politica.

A situação está tão difícil que pode levar a uma ação decisiva das autoridades europeias. A recompra de parte da dívida grega poderia ser um primeiro fôlego para a união monetária.

Mas economistas como Loynes se dizem cautelosos. Há um ano, ele escrevia sobre as chances de alguma forma de rompimento ou mudança na estrutura da zona euro nos próximos cinco anos. "Se os acontecimentos recentes continuarem, essa mudança pode vir mais rápido", estima agora.

Também para Jean Quatremer, autor de livro sobre a criação do euro, uma moeda comum com 17 políticas econômicas e orçamentárias soberanas não pode funcionar muito tempo. "Os mercados entenderam antes dos políticos: estimam que sem a criação dos Estados Unidos da Europa é preciso voltar as moedas nacionais", escreve ele.

Para Paul DeGrauwe, economista da Universidade de Louvain, na Bélgica, a catástrofe até agora foi evitada, mas a sobrevivência no longo prazo da zona do euro continua em jogo. "A crise da dívida soberana na zona euro é o resultado do fiasco de governança econômica. A sobrevivência da união monetária está na capacidade de seus líderes melhorarem a governança para responder sobre como a zona deve se reformada, e isso deveria ter ocorrido desde 2009."

O "Círculo dos Economistas", grupo que reúne alguns dos melhores economistas franceses, lançou no fim de semana, numa reunião que contou inclusive com Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central do Brasil, um apelo por uma "reatividade total" e sugere a criação do cargo de ministro das finanças europeu.

"A Europa se mostrou muito engajada, mas sua capacidade a reagir nem é nem rápida nem eficaz", diz o texto. Defende também que a zona euro faça emissão de bônus, os chamados Eurobônus. Acha que essa dívida será provavelmente mais líquida e aumentará as facilidades de financiamento dos países que utilizam a moeda comum.