Título: Itália e Espanha têm de captar ¿ 245 bi
Autor: Moreira, Assis
Fonte: Valor Econômico, 08/08/2011, Finanças, p. C8
Crise do euro: Esse é o valor necessário para rolar dívidas e cobrir déficits entre os meses de agosto e dezembro
De Genebra A Itália e a Espanha necessitam pegar emprestados ¿ 245 bilhões (US$ 347 bilhões) entre agosto e dezembro para pagar títulos de dívida que vencem no período e cobrir seus déficits, podendo manter a tormenta da crise da dívida soberana na zona do euro. No caso da Itália, a necessidade de "funding" chega a ¿160 bilhões e da Espanha, a ¿ 85 bilhões até o fim do ano. A cada mês, a necessidade de funding vai aumentando. Para 2012, somente o repagamento de títulos é estimado em ¿ 166,6 bilhões no caso da Itália e ¿ 65,5 bilhões para a Espanha.
Os mercados estão cobrando cada vez mais caro para comprar papéis italianos e espanhóis. Tanto mais que um comprometimento do Banco Central Europeu (BCE) de adquirir títulos das duas economias e reduzir o diferencial nos prêmios de risco continua em dúvida.
A decisão do BCE de não comprar bônus italianos e espanhóis, provavelmente temendo aumentar preocupações sobre outros países, na interpretação de analistas, ilustrou a impotência europeia em atenuar a crise.
Visivelmente contrariado com a atitude do BCE, o ministro italiano de finanças, Giulio Tremonti, disse ter ouvido de investidores asiáticos: "Se seu banco central não compra seus bônus, por que nós devemos comprá-los?".
Os últimos dados divulgados na sexta-feira confirmaram que a recuperação na zona do euro está desacelerando fortemente. Alimentaram as dúvidas sobre a capacidade de a Itália e a Espanha, terceira e quarta economias europeias, respeitarem seus compromissos de ajuste fiscal neste e no próximo ano.
A expectativa na sexta-feira de manhã era que os dois governos seriam obrigados a adotar medidas adicionais de austeridade. Madri e Roma confirmaram no começo da noite que farão isso. Agora, parte do mercado continua apostando que a crise vai levando a terceira e quarta economias da Europa a reestruturar suas dívidas.
Ao mesmo tempo, dados da produção industrial da Alemanha ilustram que a fragilidade não está mais limitada à periferia europeia. A produção alemã caiu 1,1% em junho, bem acima do que era previsto, de forma que a maior economia dificilmente poderá apoiar uma recuperação da região.
Como a periferia da zona do euro depende de um empurrão no crescimento econômico para começar a ter controle das finanças públicas, certos analistas acham agora que mesmo promessa de aumento dos recursos do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (EFSF, na sigla em inglês) não será mais suficiente para evitar a intensificação da crise da dívida soberana.
O Instituto Internacional de Finanças (IIF) ilustra com o resultado dos testes de estresse recente a pesada exposição dos bancos de Grécia, Irlanda, Itália, Portugal e Espanha a seus próprios títulos soberanos.
Os bancos espanhóis e italianos têm a maior exposição em relação a seus próprios governos, com ¿ 232 bilhões e ¿164 bilhões, respectivamente, representando 165% e 200% do capital Tier 1, de melhor qualidade.
Em seguida estão os bancos gregos com ¿ 48,3 bilhões, ou 240% do capital Tier 1. Já bancos da Alemanha e da França têm exposições a bônus governamentais italianos de ¿ 37 bilhões e ¿ 53 bilhões, respectivamente, um terço do capital total Tier 1 nos dois casos.
O IIF nota que a zona do euro tem uma posição fiscal bem mais forte que os Estados Unidos, por exemplo, e poderia fornecer ajuda a seus membros em dificuldade. O problema, diz, é que as autoridades europeias reagem, ao invés de se antecipar, à deterioração das crises.
Alerta que o risco de flertar com crises aumenta a fragilidade do sistema financeiro e a possibilidade de erros na adoção de políticas. Por exemplo, ênfase em contração fiscal, que dificultaria ainda mais os países voltarem a crescer. Para a representação dos bancos, no fim do dia é o crescimento econômico que vai dar uma solução para a crise da dívida soberana e tornar a dívida sustentável.