Título: Cena externa limita apostas
Autor: Bittencourt, Angela; Pinto, Lucinda
Fonte: Valor Econômico, 15/08/2011, Finanças, p. C1

De São Paulo

A crescente incerteza do cenário internacional, do Oriente ao Ocidente, é um ingrediente importante na definição das previsões para o rumo da política monetária local. As dúvidas sobre o que acontecerá com as economias da Europa, Estados Unidos e China limitam as apostas em um aperto de juros ainda mais vigoroso, na opinião de especialistas. E explicam uma relativa "tolerância" do mercado com o horizonte mais longo com o qual o Banco Central está trabalhando para a convergência da inflação.

"O Banco Central pode ter medo de subir os juros demais diante dos riscos de o mundo assistir a uma crise "a la 2008"", afirma Luis Otávio de Souza Leal, do Banco ABC Brasil, fazendo referência ao efeito da quebra do banco Lehman Brothers sobre a liquidez global. "Acredito que nem o BC tenha uma estratégia fechada e, por isso, ele deverá indicar passo a passo o que fará na condução da Selic."

Na lista dos riscos, analistas citam a possibilidade de um "default" da Grécia, cujos efeitos no sistema financeiro global são difíceis de mensurar. "Não se pode prever, ao certo, qual seria o grau de contágio de um evento como esse", observa Souza Leal. Há também a evolução da economia chinesa, onde pressões inflacionárias levam o governo a perseguir uma desaceleração que ainda não se confirma. E, nos Estados Unidos, a colocação do rating americano em revisão para possível rebaixamento pela Moody"s torna ainda mais premente o esforço do governo Obama pelo aumento do limite de endividamento do país em votação no dia 2 de agosto.

Esse conjunto de fatores pode afetar o país de várias maneiras: alterando o nível de liquidez global e o comportamento do fluxo de capitais; mexendo com preços de commodities e, portanto, com a inflação local; e provocando ajustes na taxa de câmbio. "Existem coisas que não são controláveis", afirma Souza Leal.

Por essa razão, Tony Volpon, do Nomura Securities, acredita que o BC manterá no comunicado da próxima reunião a indicação de que os juros subirão por tempo "suficientemente prolongado". "É um código que o BC adotou para mostrar ao mercado que ainda poderá subir o juro na reunião seguinte, mesmo sem assumir compromissos muito firmes", explica.

Marcelo Gusmão Arnosti, gerente da Divisão de Macroeconomia da BB DTVM, pondera que a despeito da seriedade do problema de endividamento soberano na zona do euro, a hipótese de trabalho da instituição é a de que um choque financeiro de alcance global não será exportado. "Isso posto, prevalecem condições financeiras favoráveis à aceleração da economia global no segundo semestre, em particular China e EUA. Ou seja, após uma desaceleração importante no segundo trimestre, causada fundamentalmente pelo efeitos do terremoto japonês sobre o setor industrial global e pelo efeito defasado da elevação do preço do petróleo sobre as decisões de consumo e investimento, nossa expectativa é de aceleração do crescimento global e afastamento da tese de desaceleração continuada. Assim, os preços das commodities retomam a alta e o fluxo de capitais globais voltam a se intensificar, sobretudo em direção às economias emergentes", afirma Arnosti, da BB DTVM.