Título: Mercado já admite corte de juros
Autor: Campos, Eduardo;Travaglini, Fernando
Fonte: Valor Econômico, 09/08/2011, Finanças, p. C1

Crise global: Rebaixamento do rating dos EUA alimenta aposta em desaceleração econômica

De São Paulo

O mercado financeiro cedeu à percepção de que a crise global vai afetar o desempenho da economia brasileira. E, diante da turbulência gerada pelo inédito rebaixamento da nota de crédito dos Estados Unidos, ajustou suas apostas para o rumo da política monetária local. A reação mais intensa foi observada no mercado de juros futuros, onde as taxas dos contratos de DI despencaram e, assim, passaram a projetar um corte da taxa Selic ainda este ano - movimento impensável há duas semanas.Segundo o gestor da Vetorial Asset, Sérgio Machado, o desenho atual da estrutura a termo da taxa de juros já é compatível com a ideia de um corte da Selic na reunião de outubro do Comitê de Política Monetária (Copom).

O sócio da Oren Investimentos, Jacob Weintraub, acredita nessa queda de juros ainda em 2011. "O cenário atual não justifica uma taxa de juros de 12,50% ao ano", aponta o especialista.

Ainda de acordo com Weintraub, o Copom pode ser até mais agressivo do que o sugerido pela curva. Dependendo do comportamento do mercado nos próximos dia, a redução da Selic pode acontecer já no encontro de 31 de agosto. E num caso externo de degradação externa, até mesmo antes disso, via reunião extraordinária.

Pelas contas do especialista e de sua equipe, o PIB dos EUA já deverá mostrar variação negativa no terceiro trimestre do ano. Essa desaceleração pega o mundo todo, derruba as commodities e torna a inflação um assunto de segunda ordem. "O foco agora é outro", disse.

No fechamento do pregão, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em outubro de 2011 apontava queda de 0,08 ponto percentual, a 12,30%. Na mínima do dia chegou a 12,24%, abaixo da meta da taxa over do mercado que estava ao redor de 12,40%.

A forte queda das taxas, segundo Machado, pode ser atribuída ao que se chama de "stop loss". Como a aposta generalizada no mercado era de que os juros voltariam a subir, a corrida para corrigir essas posições acontece de forma coletiva, potencializando o movimento de queda das taxas.

Já na semana passada, o mercado vinha reavaliando o cenário para o rumo da política monetária diante do agravamento da crise global. Esse movimento foi confirmado pelo resultado da pesquisa Focus, divulgada ontem pelo Banco Central (BC). A mediana das projeções para a taxa Selic para o fim de 2012 caiu para 12,50%. Nas quatro edições anteriores, a indicação era de que o Copom a elevaria para 12,75% até dezembro. "Isso reflete a perspectiva recessiva para a economia mundial", avalia o economista Carlos Eduardo de Freitas, ex-diretor do Banco Central, referindo-se principalmente aos juros. Ele lembra que a solução para a crise da dívida dos Estados Unidos envolve corte de gastos do setor público, o que deverá ter efeito recessivo sobre a economia daquele país e, por consequência, sobre as exportações do Brasil para lá.

A pesquisa não pegou o efeito do rebaixamento da nota de classificação de risco da dívida americana porque foi feita na sexta-feira.

A deterioração da crise levou o Itaú Unibanco a alterar seu cenário básico, com expectativa de menor crescimento econômico no Brasil para o próximo ano (3,7%) e uma perspectiva de demanda mais fraca por commodities, o que é benigno para inflação doméstica. "Ainda não embutimos no cenário básico uma crise prolongada de proporções maiores, mas acreditamos numa desaceleração maior da economia global em função das dificuldades na Europa e nos EUA."

Ainda assim, o economista-chefe, Ilan Goldfajn, e o economista, Felipe Salles, do Itaú Unibanco esperam uma elevação da taxa Selic na reunião de agosto, encerrando o ciclo em 12,75%.

Eles reconhecem que a probabilidade de manutenção da taxa de juros na próxima reunião é elevada, dado a crise externa, mas a inflação brasileira tem mostrado uma persistência acima do esperado, com o mercado de trabalho aquecido. "Os principais riscos de alta para o nosso cenário de inflação permanecem os efeitos ainda incertos no IPCA dos dissídios trabalhistas na segunda metade deste ano e do aumento do salário mínimo no início de 2012."

Para o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otavio de Souza Leal, o reajuste do mínimo é o aspecto mais perigoso para o médio prazo. "É um aumento real de 7,5%, muito acima dos ganhos de produtividade e para um nível de renda que usa quase 100% para consumo", diz Leal.

Sem uma crise internacional da proporção que foi a de 2008, Leal não vê espaço para redução dos juros neste ano. "Há um problema que não será resolvido nem pelo câmbio nem por commodities, que é a inflação de serviços, hoje na casa dos 9%." Ele até acreditava em mais uma alta da Selic na reunião de agosto, mas o cenário é muito incerto e a autoridade monetária terá que ser cautelosa para não repetir o que fez há três anos, quando elevou os juros dias antes da quebra do Lehman Brothers. Segundo ele, a reação dos mercados ontem retratou essas dúvidas.