Título: É preciso muito cuidado com o óbvio quando se fala em ações
Autor: Alexande do Gestor
Fonte: Valor Econômico, 06/04/2006, EU &, p. EU &
Imagine a seguinte situação hipotética: Você quer investir sua poupança adquirindo ações de uma empresa. Após um filtro meticuloso, você fica em dúvida entre duas de um mesmo setor, muito parecidas em tamanho e até mesmo em termos operacionais: a companhia ALFA e a BETA. Com as informações colhidas no seu estudo, você descobriu que a ALFA tem até R$ 1 milhão para investir em um novo projeto, cuja opção recai sobre um desses projetos com as seguintes características: desembolso inicial de R$ 100 mil e retirada de R$ 150 mil após um ano. Já a empresa BETA tem igualmente R$ 1 milhão para investir e opta por um projeto cujo desembolso inicial será o valor integral e a retirada será de R$ 1,1 milhão após um ano. Você também tem a informação de que os riscos dos projetos são equivalentes e que o custo de capital das duas empresas é de 5% ao ano. Tudo o mais constante, a avaliação desses dois projetos poderá ajudá-lo na tomada de decisão do seu investimento? A resposta é sim! Na empresa ALFA, o projeto apresenta uma rentabilidade, medida pela Taxa Interna de Retorno (TIR) de 50% ao ano. Já na BETA, o projeto possui uma TIR de 10% ao ano. Por um pensamento óbvio, como a TIR da ALFA é maior do que a da BETA, devemos optar pela empresa ALFA, correto? Não! O objetivo súpero de um administrador financeiro é aumentar o nível de riqueza dos acionistas, pois essa é exatamente a expectativa deles, quando investiram seu capital. Uma das formas para que isso se concretize é justamente executar projetos que agreguem valor à empresa, pois assim suas ações tenderão a se valorizar. Portanto, ao "orçar capital", primordialmente, devem-se aceitar aqueles que preencham essa condição. Destarte, os sócios ficarão satisfeitos ao verem seu patrimônio crescer, dentro de um determinado nível de risco. Sob esse prisma, uma forma adequada de captarmos esse incremento é analisarmos os projetos pelo método do Valor Presente Líquido (VPL) dos fluxos de caixa que eles geram, descontando-os a uma taxa de juros que reflita o custo de oportunidade da empresa, no caso o WACC (custo médio ponderado do capital). Se o VPL de um projeto é positivo, ele agregará valor e deve ser realizado; caso contrário não. O cálculo do VPL é relativamente simples: com a ajuda de uma calculadora financeira ou de uma planilha eletrônica resolvemos facilmente o problema, conforme exemplo abaixo, que calcula o VPL do projeto da empresa ALFA: Uma observação: na célula B4, a função VPL do Excel foi utilizada dessa forma: = B2+VPL(B1;B3), encontrando o resultado de R$ 42.857. De modo similar, calculamos o VPL do projeto da BETA, que é de R$ 47.619. Portanto, como o VPL da BETA é maior, devemos investir nas ações dessa companhia e não da ALFA (apesar do retorno em termos de taxa de juros ser melhor), pois é aquela que maior valor está adicionado ao patrimônio do acionista. Vejamos o mesmo exemplo, agora sob outros dois enfoques: A empresa ALFA irá gastar somente R$ 100 mil, o que significa que os outros R$ 900 mil podem ser aplicados no mercado financeiro. Admitindo que a taxa de juros que ela consiga nessa aplicação seja igual àquela do seu custo de capital, 5% ao ano (essa é uma hipótese de análise) ela irá auferir um ganho de R$ 45 mil. Somando-se esse número aos R$ 50 mil do ganho de capital do projeto, o retorno total será de R$ 95 mil, ainda assim menor do que os R$ 100 mil que o projeto da BETA rende. O outro enfoque é avaliarmos pela análise do fluxo incremental (BETA menos ALFA) qual seja saída inicial de R$ 9 mil e entrada, após um ano, de R$ 950 mil. O VPL desse novo fluxo, descontado à mesma taxa de 5% ao ano é de R$ 4,762; positivo, portanto. Repare que o VPL do projeto de ALFA adicionado ao VPL do fluxo incremental perfaz o VPL do projeto da BETA. Ou seja, mesmo sob essas duas outras formas de avaliar a decisão permanece sendo a compra das ações da empresa BETA. É evidente que nesse exercício hipotético fizemos uma série de abstrações, longe da realidade cotidiana. Nosso intuito, contudo, é mostrar que a análise fundamentalista contempla uma série de pormenores, que, muitas vezes, contrapõem-se à aparente obviedade.
Alexandre Espírito Santo é sócio da Avanti Gestão de Recursos e chefe do departamento de Economia e Finanças da ESPM-RJ E-mail aesanto@avantigestao.com.br
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