Título: Economista do Ipea propõe corte de salários para gerar mais empregos
Autor: Raquel Salgado
Fonte: Valor Econômico, 07/04/2006, Brasil, p. A3

Aceitar salários menores para gerar mais empregos e, assim, reduzir a desigualdade social brasileira. A polêmica idéia é defendida pelo economista Ricardo Paes de Barros, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Para ele, a pior forma de desigualdade é aquela causada pelo desemprego. E a redução da jornada ou a diminuição dos salários pagos seria uma forma de gerar postos de trabalho. Além disso, ele critica os reajustes do salário mínimo, que beneficiam idosos nem sempre pobres e podem, ainda, estimular a informalidade e demissões. Para deixar palpável seu argumento, o economista compara dois Estados brasileiros com Produto Interno Bruto (PIB) de valor semelhante, mas com níveis de ocupação e remuneração bastante distintos. No Ceará, o rendimento médio anual é de R$ 3,5 mil, enquanto o número de ocupados é de 3,3 milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, no Espírito Santo, a remuneração é quase duas vezes superior: R$ 6,5 mil ao ano. No entanto, a quantidade de pessoas ocupadas é quase a metade: 1,5 milhão. "Se pudéssemos baixar o salários das pessoas empregadas e gerar mais empregos, eliminando os desocupados, e mantivéssemos a massa salarial, teríamos um impacto positivo enorme sobre as diferenças sociais", afirmou, ontem, em evento da consultoria Tendências. Para Barros, isso poderia ser feito se os trabalhadores aceitassem salários menores ou diminuíssem a jornada sem redução da remuneração por hora, mas com queda na renda total. Para provar que o impacto do desemprego é forte sobre a pobreza e a desigualdade no Brasil, o economista simulou uma situação na qual o desemprego seria eliminado, mas sem que houvesse alteração na massa salarial e levando em conta uma renda média de R$ 442. Como resultado, a parcela da população que é extremamente pobre recuaria 12%, e aquela parte considerada pobre ficaria 6% menor. É considerada pobre uma família que tem renda per capita abaixo de meio salário mínimo. Extremamente pobre são as famílias que ganham menos de um quarto do mínimo. Pelos cálculos do economista, baseados nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domícilios (PNAD), de 2003, somente 3% das famílias brasileiras extremamente pobres têm uma pessoa com mais de 64 anos. Por outro lado, 82% das famílias extremamente pobres têm pelo menos uma criança com menos de 15 anos. A partir desses dados, Paes de Barros argumenta contra reajustes altos do salário mínimo. Ele ressalta que apenas 19% dos empregados com carteira assinada ou funcionários públicos com salário próximo ao mínimo são chefes de domicílios pobres. A grande maioria, 65%, está incluída na categoria "demais membros da família". Assim, afirma ele, fica claro que o aumento do mínimo, que serve também para reajustar os benefícios da Previdência Social, prioriza os aposentados. "O Brasil tem uma política social pró-idoso e anticriança. Dessa forma, beneficiando idosos e deixando os menores de lado, estamos contratando pobreza para o futuro". Entretanto, Paes de Barros não acredita que desvincular a Previdência Social do reajuste do mínimo seja uma solução. "É temeroso, porque a vinculação faz com que o governo dê o menor reajuste possível. Se o mínimo não for mais ligado às aposentadorias, a União pode acabar gastando muito e comprometer ainda mais o gasto público", diz.