Título: Os novos duelos do xerife da internet
Autor: João Luiz Rosa
Fonte: Valor Econômico, 07/04/2006, Empresas &, p. B3

Sem o paletó, que só sai do encosto da cadeira na hora da fotografia, John W. Thompson fala com voz firme enquanto desfia críticas abertas a seus adversários. Aos 56 anos de idade, o executivo-chefe da Symantec, a maior fornecedora de software antivírus do mundo, é conhecido por esse estilo: informal, mas sem resvalar na bravata. É dele, atualmente, o posto de xerife da internet, um papel a que o executivo tem se dedicado com afinco desde que tomou em suas mãos as rédeas da companhia. Em 1999, quando Thompson deixou o comando das operações da IBM nas Américas para assumir a direção da Symantec, as vendas da fornecedora de software somavam US$ 563 milhões e o lucro era de pouco mais de US$ 50 milhões. Sob sua direção, muita coisa mudou. No ano fiscal 2005, já encerrado, a Symantec atingiu uma receita de US$ 2,6 bilhões, com lucro de US$ 536 milhões. Ou seja, os ganhos representaram mais de dez vezes o valor obtido em seu primeiro ano no controle. Ao turbinar o lucro, Thompson mostrou que consegue beijar a mocinha - no caso, o acionista -, enquanto esmurra os bandidos: hackers, criadores de vírus, quadrilhas especializadas em fraudes digitais e toda sorte de malfeitores que costuma assaltar a terra sem lei da web. Agora, porém, ele tem outros duelos pela frente e os oponentes são bem diferentes, a começar da maior companhia de software do mundo, a Microsoft. Sempre à procura de novos mercados, a empresa de Bill Gates já anunciou que pretende lançar, em junho, seu próprio pacote de segurança, batizado de OneCare. Thompson não despreza o movimento da rival: "Quando decide entrar em um mercado, a Microsoft é uma ameaça muito séria", afirma. O mercado de tecnologia da informação já viu mais de uma vez a Microsoft desalojar competidores mais antigos, como a Netscape nos programas de navegação na internet, o ICQ no de mensagens instantâneas, e o WordPerfect nos processadores de texto. Thompson sabe de tudo isso, mas não se intimida. A Symantec tem a seu favor a marca Norton, uma das mais valiosas no mercado de segurança, e está pronta para usar isso em seu favor. "Temos uma experiência de quase 25 anos, com foco em segurança. Não perdemos tempo pensando na entrada da Microsoft, mas em como reforçar a proteção ao nosso consumidor. Eles que venham", desafia. Em certa medida, diz o executivo, é possível que a entrada da Microsoft beneficie os concorrentes tradicionais na etapa inicial da competição. "Eles vão gastar muitos dólares para promover o que são capazes de fazer, o que deve elevar o nível de consciência do consumidor sobre a necessidade de investir em segurança", justifica.

-------------------------------------------------------------------------------- Para este ano, um dos planos da companhia é lançar o Gênesis, que vai transformar software em serviço --------------------------------------------------------------------------------

A melhor maneira de competir com a Microsoft, além dos demais concorrentes, é inovar, diz Thompson. É por isso que ele promete para este ano, especialmente no segmento de usuários residenciais, uma oferta de lançamentos maior que o de qualquer outro ano na história da Symantec. Há algumas semanas, a empresa lançou nos Estados Unidos o Norton Backup Restore, um produto que ajuda a proteger e recuperar arquivos de música em MP3, fotos da família e dados financeiros, entre outras informações que ficam cada vez mais armazenados no computador de casa. Além disso, toda a linha de produtos de consumo será renovada, incluindo o Norton Antivírus, o Norton Personal Firewall, o Norton Systemworks e o Norton Internet Security, entre outros. A principal aposta da Symantec, no entanto, não tem o nome Norton - pelo menos por enquanto - estampado na caixa e pode ser que nem seja vendido em caixa alguma. O nome-código do projeto é Gênesis e tenta marcar exatamente o que a palavra significa: um novo começo para a companhia. A percepção da Symantec é que as ameaças virtuais multiplicaram-se tanto, ocasionando uma avalanche de vacinas de software, que o usuário está confuso e não sabe mais o que comprar. Pior, começa a se cansar de ter de adquirir tantas coisas diferentes. Com o Gênesis, a Symantec quer empacotar as principais funções - como as armas contra vírus e propagandas não-solicitadas - em uma única oferta e vendê-lo ao consumidor na forma de serviço. Isso é o Gênesis. O cliente poderia baixar o programa da internet e pagá-lo por uso: os modelos de remuneração ainda não estão definidos e poderiam incluir o pagamento de taxas mensais, como se fosse um aluguel. É um sistema no qual a rival McAfee já tem atuado, o que tem levantado questões sobre a capacidade das empresas de software de segurança de manter suas participações de mercado, sem baixar os preços perigosamente. Thompson nega, porém, que uma guerra de preços esteja por vir. O primeiro tiro, pelo menos, não partirá da Symantec, diz ele. "Não vamos provocar um colapso na estrutura de preços do setor. Alguns concorrentes têm feito coisas idiotas, mas não nós." Dentro de casa, Thompson tem pela frente o desafio de combinar a Symantec com a Veritas, a empresa de software de armazenamento de dados pela qual ele pagou US$ 10,2 bilhões no ano passado. O negócio afetou os desempenhos trimestrais recentes da empresa e criou uma certa desconfiança entre os analistas de Wall Street. Thompson defende o negócio e diz que ele deu à companhia condições de oferecer uma proteção completa aos dados dos seus usuários. Ele cita uma pesquisa feita com grandes clientes nos EUA, que teria mostrado que 70% deles aprovam a aquisição. Mas e quanto aos analistas? "Não são eles que compram os nossos softwares", responde o executivo, dosando a observação com um sorriso.