Título: Lula avança em acordo para deixar PMDB sem candidatura própria
Autor: Raymundo Costa
Fonte: Valor Econômico, 28/04/2006, Política, p. A10

Em conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dirigentes do PMDB asseguraram que o ex-governador Anthony Garotinho perderá a convenção marcada para 13 de maio e pediram mudanças no Ministério das Comunicações. Lula respondeu que estava pronto para resolver as pendências dos pemedebistas, mas disse que antes a sigla precisa se posicionar em relação à sucessão presidencial. O mais provável, segundo a avaliação feita pelos dirigentes, é que o PMDB fique sem candidato próprio, o que também atende aos interesses do presidente. Lula Marques/Folha Imagem - 26/04/2006 Lula e Renan na noite de quarta: o presidente ouviu dos pemedebistas a avaliação de que Quércia fechará com o PSDB

A reunião ocorreu na noite de quarta-feira, num intervalo do lançamento do livro do senador Aloizio Mercadante (PT-SP), em Brasília. Além de Lula e Mercadante, participaram da conversa o presidente do Senado, Renan Calheiros, o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Nelson Jobim e o ex-ministro da Previdência Romero Jucá, pelo PMDB. Na véspera, Renan conversara com o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin. Segundo contou Renan ao presidente, Alckmin pediu, sem êxito, que o PMDB assumisse o compromisso de não apoiar nenhuma candidatura presidencial no primeiro turno das eleições.

De acordo com o relato feito pelos pemedebistas, a candidatura Garotinho começou a perder terreno com as recentes denúncias sobre doações à sua campanha. O próprio presidente do PMDB, Michel Temer, e o grupo da Câmara que apoiaram Garotinho teriam começado a recuar nessa decisão. Além das denúncias contra o ex-governador, conforme o mesmo relato, pesam no enfraquecimento de Garotinho o interesse regional dos dirigentes partidários, incompatíveis com o lançamento de uma candidatura própria a presidente por causa da verticalização das eleições, a regra segundo a qual adversários nas eleições nacionais não podem fazer alianças nos Estados.

O exemplo de São Paulo foi mencionado pelos pemedebistas. Segundo eles, a "terra está fofa (pronta para ser semeada)" no sentido de uma aliança do PMDB com o PSDB, tendo Orestes Quércia como candidato a vice-governador na chapa de José Serra e o deputado Michel Temer como candidato ao Senado. A hipótese de Temer na vice e Quércia no Senado também existe, mas de acordo com a exposição ouvida por Lula, o ex-governador paulista passou a se interessar mais pela vice de Serra na expectativa de que o tucano deixe o governo do Estado em 2010 para concorrer à Presidência da República. Nessa perspectiva, a candidatura de Garotinho seria inconveniente para os dois pemedebistas. Além deles, a maioria dos governadores da sigla também se opõe à indicação de Garotinho.

Na avaliação feita pelos dirigentes do PMDB a Lula, a situação atual do partido tem três alternativas:

1- Candidatura Garotinho: a menos que suba muito nas pesquisas, a probabilidade de ser mantida passou a ser remota depois das denúncias sobre as doações recebidas pelo ex-governador do Rio, que servem como forte pretexto para quem não quer candidato. A candidatura Itamar Franco nem é considerada.

2- A indicação de Nelson Jobim para vice de Lula: improvável por contrariar os interesses de composição regional, mas é um assunto que deve voltar à pauta a partir da remoção de Garotinho.

3- Sem candidatura própria: hipótese mais provável, inclusive com uma declaração do partido de apoio a Lula, que se tornaria formal na eventual realização de um segundo turno. Os pemedebistas formariam desde logo palanques pró-Lula nos Estados. A expectativa é que, solto nos Estados, o PMDB possa eleger maioria na Câmara e no Senado.

Pelo apoio a Lula, o PMDB conta com "contrapartidas" do governo federal. Foi relatado que há grande insatisfação da bancada de senadores com o ministro das Comunicações, Hélio Costa. Os senadores alegam que Hélio Costa demonstrou não ter qualquer influência no PMDB de Minas Gerais, mas o motivo da insatisfação na realidade é outro: o ministro preencheu os cargos da Pasta sem levar em consideração as indicações da bancada, dentre elas as de Renan, Romero e do senador José Sarney (AP).

A bancada, no entanto, admitiria a permanência de Hélio Costa até o fim do ano, segundo alega, por entender as dificuldades para Lula demitir um ministro no momento. Mas neste caso quer que ele atenda de imediato os pedidos de nomeação para cargos como a secretaria-executiva do ministério e a direção dos Correios.

Segundo apurou o Valor, Lula respondeu que está pronto para atender o PMDB, mas precisa que antes o partido se posicione formalmente sobre a eleição presidencial. Na conversa durante o lançamento do livro de Mercadante, numa sala reservada, o assunto foi o Ministério das Comunicações, mas o PMDB da Câmara também pressiona o presidente para indicar um novo ministro da Saúde.