Título: Comunidade Andina morreu, diz venezuelano
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Fonte: Valor Econômico, 27/04/2006, Brasil, p. A2
O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, afirmou ontem que a Comunidade Andina (CAN) está morta. "Não diria a crise da CAN, mas a morte. Está morta". Segundo ele, a saída da Venezuela do bloco é resultado de uma "situação de fato" e não será uma tragédia, porque a CAN já cumpriu o seu papel histórico.
A Venezuela decidiu deixar a Comunidade Andina porque Colômbia e Peru fecharam acordos de livre comércio com os Estados Unidos. Bolívia e Equador também fazem parte do bloco. Chávez deu essas declarações após participar de reunião em São Paulo com o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e da Argentina, Néstor Kirchner.
Em visita a Brasília na terça-feira, o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, pediu a Lula para mediar a disputa. Chávez confirmou que conversou com o presidente brasileiro sobre o assunto. "Eu disse a Lula: não se preocupe, fique tranqüilo. Vou falar com Uribe. Não vamos entrar em guerra, nem romper relações. O intercâmbio entre Venezuela e Colômbia vai se manter", disse.
Chávez foi o único dos três presidentes a conversar com os jornalistas após o encontro. Descontraído, ele falou por duas horas, mandou um beijo para a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, fez várias brincadeiras e ataques aos EUA "É como um divórcio", afirmou, referindo-se a saída da Venezuela da CAN e aos acordos de livre comércio com os EUA. "É bigamia. Se você se apaixonou por outra mulher, não pode casar duas vezes. Ao menos não é nossa cultura", brincou.
Para Chávez, a Venezuela está exercendo seu direito soberano e protegendo sua indústria de uma invasão dos produtos americanos. Ele afirmou que os Estados Unidos fracassaram na reunião de Mar del Plata, na última Cúpula das Américas, mas iniciou uma ofensiva de acordos bilaterais que chegou à Comunidade Andina.
Chávez afirmou que retornará um telefonema de Uribe e que os dois estabeleceram uma boa capacidade de diálogo, mas disse não acreditar que a Colômbia mudará de opinião. Ele reconheceu torcer pela vitória de Ollanta Humala nas eleições do Peru, e para que o candidato nacionalista desista do acordo com os EUA.
O Brasil está preocupado com os impactos que a saída da Venezuela terá na Comunidade Sul-Americana de Nações, um projeto especial para o governo Lula. "O que nos interessa é que todas essas questões sejam resolvidas no espírito da união sul-americana. Tanto Chávez quanto Uribe estão de acordo", disse o ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim.
Segundo o ministro, o Brasil considera "compatível" a integração da Venezuela no Mercosul e na Comunidade Andina. Ele também afirmou que "naturalmente a CAN terá que passar por alguma reformulação de normas, a medida que alguns países assinaram um acordo de livre comércio com os Estados Unidos".
Durante a coletiva, Chávez disse se recordar de uma ocasião em que Amorim foi questionado sobre a possibilidade de um país do Mercosul assinar um acordo de livre comércio com os Estados Unidos. Segundo declarações do presidente venezuelano, o ministro brasileiro teria dito que seria necessário deixar o Mercosul. Há rumores de que Uruguai e Paraguai têm interesse em um acordo com os EUA, mas sempre foram desmentidos.
Outro tema polêmico que rondou a reunião de ontem foi a disputa entre Argentina e Uruguai sobre a construção de fábricas de papel e celulose na bacia do Rio da Prata, do lado uruguaio. Amorim e Chávez afirmaram que a questão não foi discutida na reunião. Segundo informações da delegação argentina, Kirchner e Lula falaram sobre o assunto no encontro privado que ocorreu na terça-feira à noite. Kirchner expôs a posição argentina e Lula questionou se era possível evitar que o país recorresse ao Tribunal de Haia e resolvesse a questão no âmbito do Mercosul. O presidente argentino disse que não.(RL)