Título: Índice baseado em terremoto prevê novas quedas para bolsa
Autor: Pavini , Angelo
Fonte: Valor Econômico, 05/08/2011, Investimentos, p. D1
Depois da derrocada do Índice Bovespa de 10,2% somente nesta semana, elevando para 23,8% a queda no ano, os investidores se perguntam se este é o fundo do poço. As perspectivas, no entanto, não são positivas. Pelo menos é o que alerta o Índice de Mudanças Abruptas de entrada, batizado de IMA-entrada.
O indicador foi desenvolvido pelos pesquisador Marco Antonio Leonel Caetano, professor de Sistemas de Informação do Insper, em conjunto com Takashi Yoneyama, do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA). O índice avalia o grau de estresse das bolsas nos períodos que antecedem crises ou que revelam bons momentos para compras. O referencial leva em conta as frequências com que os preços se moveram nos últimos 60 dias e, em seguida, revela a tendência do mercado.
A base para o índice veio de um estudo de sinais para prever terremotos. Parece loucura? O professor explica que, antes de uma grande virada, o mercado se torna absolutamente nervoso e frenético, fazendo com que as frequências das negociações oscilem muito rapidamente em uma determinada faixa.
Mas o que isso tem a ver com terremotos? Observando-se os dados de sismógrafos antes de um terremoto, é possível perceber que, quando as placas tectônicas se deslizam umas sobre as outras causando um certo movimento frenético no gráfico. Os sismólogos explicam ainda que, depois de um grande terremoto, tremores secundários ocorrem, mas vão diminuindo de frequência até desaparecerem.
Pois bem, com base nisso, o IMA foi elaborado e, em seguida, foi subdividido em dois. O primeiro, o IMA-crash, mede o risco de reversão de uma tendência de alta da bolsa. O segundo, o IMA-entrada, mensura o risco de uma mudança na tendência de queda. Ambos variam de zero a 1, sendo 1 o "fundo do poço", explica Caetano.
Hoje o IMA-entrada encontra-se em 0,76 e deve buscar o nível 1. Isso significa que o Ibovespa deverá aprofundar ainda mais sua queda, fazendo com que o índice alcance rapidamente algo próximo a 1. Ainda não será hora de entrar, explica o professor. "Só quando começar a reverter e cair será a melhor hora para o investidor de longo prazo entrar", diz Caetano.
Enquanto o indicador permanecer no alto, acima de 0,9, é melhor o investidor esperar. Já o IMA-crash está em zero. "Quando o índice indica que o mercado vai virar, as pessoas acham que o movimento vai acontecer amanhã, mas essa é uma tendência de longo prazo", ressalta o professor.
Se pelo lado do índice não é possível ser otimista neste momento, pelos fatores macroeconômicos a situação também não se mostra positiva. Caetano diz acreditar que o mundo entrará em recessão. "Alguns achavam que, depois da crise, a economia ia se comportar em forma de V, outros em W, mas na minha opinião será em M [ou seja, alta, queda, alta e uma queda violenta]", diz ele. "Algum grande banco vai quebrar, como nas outras crises, e teremos outro efeito manada."
Desde a pontuação máxima do Ibovespa neste ano - de 71.631, registrada em 12 de janeiro -, o principal referencial da bolsa brasileira acumula queda de 26,27%. Só para se ter ideia, naquele momento, o IMA-crash chegava a 0,76, enquanto o índice de entrada era zero. Ou seja, a frequência estava alta, abrindo espaço para quedas.
Já durante a crise de 2008, o índice de "crash" chegou próximo da máxima, a 0,96, em meados de maio. Vale lembrar que o Ibovespa despencou de 73.516 pontos no dia 20 de maio para 29.435 pontos em 27 de outubro - uma desvalorização de 60%.
Segundo Caetano, o grande culpado por essa crise chama-se Federal Reserve (Fed, o banco central americano), que injetou mais de US$ 1 trilhão no mercado. "Ben Bernanke achava que, injetando dinheiro no sistema financeiro, a economia ia acalmar e haveria geração de emprego, o que não aconteceu", afirma o professor. Ao colocar dinheiro na economia, o Fed incentivou os grandes fundos a emprestar recursos no mercado para comprar títulos, o que resultou em uma movimentação artificial, diz Caetano. "Agora que o dinheiro fácil parou, os fundos vão naturalmente sair vendendo."
A situação na Europa deixa o cenário ainda pior, ressalta o professor, que acredita que Itália e Espanha vão, sim, precisar de um socorro financeiro dos países da União Europeia. "E não há recursos suficientes para ajudar essas duas economias", afirma Caetano. O Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF, na sigla em inglês) poderá gastar, no máximo, ¿340 bilhões. O problema é que, o socorro, nos moldes aplicados a Portugal, exigiria ¿ 800 bilhões. Ontem, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, tentou acalmar o mercado ao sinalizar que deve retomar o programa de compra de títulos e afirmar que pretende injetar mais liquidez nos mercados.
No caso da bolsa brasileira, os grandes fundos de investimento ficaram fora por um tempo neste ano para se concentrar no mercado americano. Agora, esses investidores estrangeiros voltaram, mas estão vendidos em índice futuro, ou seja, apostando na queda.