Título: Renda cresce e varejo dilata prazos, corta juro e reduz parcelas
Autor: Marta Watanabe, Sérgio Bueno, Denise Neumann e Iva
Fonte: Valor Econômico, 10/04/2006, Brasil, p. A3

O cenário macroeconômico extremamente favorável ao consumo levou redes varejistas e financeiras a facilitar as regras de concessão de crédito. As empresas ampliaram o prazo de financiamento, reduziram juros e diminuíram a parcela mínima da prestação.

O varejo mira a renda extra superior a R$ 20 bilhões que começa a circular na economia. Dois movimentos simultâneos elevam os recursos disponíveis da população. De um lado, há o aumento de 13% no salário mínimo, a correção da tabela do imposto de renda, o reajuste de 5% para os aposentados que recebem mais do que o mínimo e a possibilidade de uma correção no valor pago ao Bolsa Família. Na outra ponta, a inflação em queda libera renda para o consumo.

"A inflação do segundo trimestre será menor do que a do primeiro e os preços dos materiais de construção serão beneficiados pela recente redução de impostos", diz o economista-chefe da Mandarim Gestão de Ativos, Eduardo Velho, colocando mais um elemento no cenário "benigno" ao consumo. A atividade no segundo trimestre, diz ele, terá um ritmo mais forte do que a dos primeiros três meses.

De olho na classe C, a Di Cicco passou a oferecer compras em 24 vezes, com juros de 1,99% ao mês e parcela mínima de R$ 20. "Queremos aproveitar essa fase de ascensão do consumo de baixa renda", diz o diretor de marketing da rede, Carlos Roberto Corazzin. "Essa faixa faz compras de menor valor, mas nela está um número grande de pessoas", explica ele. Com 15 lojas no Estado de São Paulo, o parcelamento mais tradicional da rede de materiais de construção é em 12 vezes sem juros, mas com parcela mínima de R$ 250 mensais.

Para o diretor, a nova forma de pagamento irá contribuir para que o segundo trimestre de 2006 mantenha o bom desempenho dos três primeiros meses. "De janeiro a março o faturamento cresceu 15% em relação a 2005, levando em conta as mesmas lojas", diz Corazzin. Segundo o diretor, a rede repassou ao consumidor a redução de 18% para 12% do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre pisos cerâmicos, em vigor desde janeiro. Também a redução entre 5% e 7% do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre materiais de construção chegou aos preços.

"O incentivo do IPI permitiu uma nova negociação com o fornecedor, o que resultou numa redução maior do que o próprio percentual de redução do imposto", diz o diretor-geral da Casa Show, Guilherme Rodrigues. A Casa Show, conta o diretor, iniciou em 30 de março um parcelamento de até dez vezes sem juros, com parcelas mínimas de R$ 50. O limite anterior era de até seis vezes sem juros, com parcela mínima de R$ 40.

O parcelamento foi anunciado com prazo até 14 de abril. "Se prosseguirem os bons resultados que tivemos, vamos prorrogar as condições até o fim do ano." Pelas contas de Rodrigues, o faturamento da rede de oito lojas cresceu em 20% na primeira semana do parcelamento dilatado em relação ao mesmo período de 2005. "Houve também uma elevação de 15% na freqüência de público."

Para o economista Sérgio Vale, da MB Associados, é esse mesmo o tipo de consumo que crescerá: materiais de construção, vestuário e alimentos. "Os pacotes do governo beneficiam a parcela mais pobre da população", observa. Mas regionalmente, diz, haverá muita assimetria no consumo, que aumentará mais no Norte e Nordeste.

De olho na maior disponibilidade de renda, o Banco Panamericano facilitou as condições de uma linha de empréstimo pessoal de até R$ 25 mil e que exige o automóvel do cliente como garantia. Esse financiamento era oferecido em 20 meses, juros de 4,5% ao mês e crédito limitado a 50% do valor do veículo. Em janeiro, foi reformulado: prazo de 36 meses, juros de 2,8% ao mês e valor de até 70% do veículo.

Essa linha de crédito, diz o diretor comercial, Carlos Roberto Vilani, é tomada principalmente por pessoas que estão na inadimplência de curto prazo com bancos ou cartão de crédito. Se elas tiverem um carro próprio, podem tomar o empréstimo. "Com economia aquecida e mais renda disponível, há mais pessoas em condições de zerar as dívidas", acredita ele.

O mesmo raciocínio é a base de uma nova linha de crédito que o Panamericano deve lançar logo: um empréstimo pessoal que terá como garantia o imóvel do tomador de crédito. A taxa de juros não está definida, mas o empréstimo será concedido em até 50% do valor do imóvel, num prazo de cinco anos. Serão concedidos créditos entre R$ 30 mil e R$ 300 mil.

Embora a ofensiva sobre o consumidor seja maior no varejo de construção, também as redes de eletrodomésticos estão atentas. A Lojas Colombo ampliou de 15 para até 25 vezes o prazo de pagamento nas suas 351 lojas na região Sul, São Paulo e Minas Gerais. A mudança ocorreu em fevereiro e a expectativa é elevar em até 50% as vendas de itens procurados pelos consumidores C e D, como televisores de 14 e 20 polegadas, fogões até R$ 300, refrigeradores e lavadoras de roupas mais simples, diz o diretor Arnildo Heimerdinger.

O prazo máximo vale para os computadores "populares", de R$ 1.108 à vista, que saem por 25 vezes de R$ 69,90. A rede vendeu, em março, mais de 6 mil máquinas e sem os novos prazos o volume cairia pela metade, acredita o executivo. "Os consumidores compram se as parcelas cabem no bolso".

As vendas de eletrodomésticos em 36 vezes já representam quase 15% das vendas da rede mineira Ricardo Eletro -112 lojas em Minas, Bahia e Espírito Santo. Pelo ritmo do crescimento das vendas, a direção da empresa acredita que no primeiro semestre passem para perto de 25% das vendas.

Por enquanto, este prazo só vale para as vendas consignadas, com débito na folha de pagamento. "O prazo de 36 meses aumenta o poder de compra do consumidor", diz a diretora comercial da Ricardo Eletro, Jacqueline Jardim Feital. A rede criou uma diretoria específica para cuidar da venda consignada cuja principal missão fechar convênios com governos estaduais, prefeituras e empresas estatais.

A Dismel, rede baiana lojas de materiais de construção, oferece há seis meses o parcelamento em até 24 meses. O crédito é concedido por financeiras, mas acertado na loja. "Já não temos mais o risco do cheque pré-datado", diz Osmar Araújo, gerente administrativo e financeiro e um dos sócios da empresa. O número de parcelas pode chegar a dez para uma compra acima de R$ 2 mil. Parcelamentos menores dão direito, em contrapartida, a descontos no preço final, também de acordo com o valor da venda.

Na rede calçadista Esposende, pertencente a gaúcha Paquetá, com mais de 30 lojas no Nordeste, não existe a intenção de ampliar o prazo hoje ofertado. "Já trabalhamos com até 150 dias. No setor calçadista ampliar o prazo é inviável. As margens ficam extremamente reduzidas e costuma ocorrer um aumento da inadimplência", observa o diretor da cadeia de lojas, Sílvio Vasconcelos.