Título: Italianos consolidam a 'gerontocracia' que domina sua política
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 10/04/2006, Internacional, p. A13

É estranho que nesta eleição na Itália os adversários sejam os mesmos que disputaram o posto de premiê em 1996 (quando Romano Prodi venceu). É ainda mais singular que ambos estejam em idade de se aposentar. Se a próxima legislatura durar até o fim do mandato de cinco anos, Silvio Berlusconi então terá 74 anos e Prodi, 71. O chefe de Estado italiano, Carlo Azeglio Ciampi, tem 85 anos e fala-se seriamente em sua reeleição. Caso em maio venha a ser escolhido novamente, ele estará com 92 anos ao final de seu mandato.

A Itália tornou-se um país de gerontocratas. Em nenhum outro país da Europa a velha-guarda persiste com tanta tenacidade. A exclusão dos jovens tornou-se um tema de campanha. O presidente Ciampi não é o único membro da geração do pós-guerra ainda em posição de influência. Um ex-primeiro-ministro, Giulio Andreotti, continua politicamente ativo aos 87 anos de idade, graças a seu assento no Senado. Ele é um de sete senadores vitalícios, dos quais o mais jovem, o ex-presidente Francesco Cossiga, tem apenas 77 anos.

Um italiano sequer pode concorrer ao Senado se não completou 40 anos - o mais alto limiar de acesso a qualquer câmara legislativa européia. Uma pesquisa do Forum Nazionale dei Giovani, um grupo ativista das causas dos jovens, mostrou que apenas 5% dos legisladores italianos têm menos de 40 anos; o único país na Europa Ocidental com menor participação é a França (a Itália também tem a menor participação de mulheres em sua legislatura, menor do que na França).

Homens idosos dominam muitas esferas da vida italiana, mesmo em terrenos onde comumente os jovens são considerados essenciais. O mais famoso apresentador de programas de prêmios em auditórios na TV italiana, Mike Bongiorno, lutou na Resistência durante a Segunda Guerra Mundial. Um popular astro do rock, Adriano Celentano, estreou em 1957. E o "poder grisalho" está avançando. Um estudo encomendado pelo instituto de pesquisas e planejamento Glocus, de centro-esquerda, verificou que entre 1998 e 2004, a presença de pessoas com mais de 60 anos no "Quem é Quem" italiano cresceu de 46% para 53%.

O estudo sustenta que a Itália é gerontocrática porque não é meritocrática. Mas a lentidão do crescimento econômico pode ter alguma influência nisso. Uma ex-membro da Comissão Européia que está planejando concorrer à presidência - Emma Bonino (apenas uma garotinha, aos 58 anos), comenta que numa economia estagnada cresce a intolerância em relação à renovação etária.