Título: Em boa fase, segmento de florestas vislumbra entraves no longo prazo
Autor: Mauro Zanatta
Fonte: Valor Econômico, 18/04/2006, Agronegócios, p. B12

Beneficiado até aqui pela alta dos preços internacionais, uma demanda interna aquecida e exportações em ritmo acelerado, o segmento de florestas plantadas prepara-se para um horizonte mais cauteloso a partir de 2009.

Além da questão pontual da taxa de câmbio, as razões da precaução são a estabilização do consumo em um cenário de produção em alta. Empurrada por pesados investimentos previstos em US$ 20 bilhões até 2010, a oferta de celulose deve ficar acima da demanda em três anos.

"Estamos apreensivos. Teremos um aumento da oferta interna entre 2009 e 2012, o que deve resultar numa leve freada na expansão", afirmou ao Valor o presidente da Associação Mineira de Silvicultura e superintendente da Cenibra, Germano Vieira. "Esse processo deve demorar uns quatro anos até voltar ao normal", prevê o executivo.

Apesar da redução gradativa de preços e investimentos causados por este excesso de oferta, as empresas do segmento mantêm apostas elevadas na construção, ampliação e modernização de fábricas e na expansão das áreas de produção. Hoje, o setor celebra 101 anos de atividade no país com a abertura de um congresso para "vender" sua imagem.

"Aumentamos a produtividade e vamos dobrar a produção até 2015. Temos fôlego para competir", garante Carlos Aguiar, presidente da Aracruz Celulose e da Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas (Abraf) - que reúne pesos-pesados como Votorantim, Gerdau, Veracel, Ripasa, Suzano, Duratex, Acesita, Stora Enso e Klabin.

Embora mais cauteloso, o segmento vive um bom momento. A Cenibra, por exemplo, aumentará a produção anual de 960 mil para 1,2 milhão de toneladas de celulose até 2007. Par isso, investiu cerca de US$ 250 milhões. Em 2012, a empresa controlada pela japonesa Oji Paper produzirá 1,8 milhão de toneladas.

As empresas do setor faturaram US$ 17,5 bilhões e exportaram US$ 7,4 bilhões em 2005. O setor chegou a 5,25 milhões de hectares plantados com eucaliptos e pinus. Foram 10,1 milhões de toneladas de celulose, 8,6 milhões de papel e 8,4 milhões de m³ madeira. Os preços da celulose subiram de US$ 550 para US$ 600 por tonelada.

"O mercado é crescente, mas a desvalorização do dólar frente ao real elevou em 15% os custos, sobretudo com mão-de-obra e diesel, o que impactou a logística, já que a madeira percorre uma média de 150 quilômetros até as fábricas", afirma Germano Vieira.

Nos bastidores, o congresso das empresas do setor servirá para aumentar a pressão sobre o governo por uma mudança de seu prestígio econômico. A medida mais visível é deixar a tutela do Ministério do Meio Ambiente e passar a responder ao Ministério da Agricultura.

O ministro Roberto Rodrigues havia convencido o então ministro da Casa Civil, José Dirceu, a apoiar a modificação. A queda de Dirceu complicou a situação. O setor avalia que a mudança reduziria as amarras burocráticas e daria mais apoio político para avançar em concessões.

"O setor não tem esse enfoque de preservação da Amazônia. Precisamos mais vibração e menos cobranças da parte do governo", diz Carlos Aguiar. Ele avalia, porém, que a tutela do Meio Ambiente foi positiva para induzir à legalidade ambiental. "Mas foi ruim pela burocracia e restrições excessivas. Eles ainda enxergam apenas uma monocultura", reforça Germano Vieira. Segundo ele, hoje são necessárias 32 licenças e registros diferentes do plantio ao corte das árvores. "Vamos crescer nos 30 milhões de hectares de pastagens degradadas".

As empresas do setor também reclamam das freqüentes invasões de terra feitas pelo Movimento dos Sem Terra (MST), o alto custo de capital e o peso dos impostos sobre a produção. "Essas invasões podem afugentar investimentos, sobretudo estrangeiros, porque afetam a imagem do setor no exterior", avalia Aguiar. O executivo afirma que o custo de dinheiro no Brasil é o dobro do Chile, por exemplo. "Somado à taxação da atividade, saio com uma desvantagem de 30% sobre os concorrentes de outros países".