Título: Real valorizado baixa preço dos veículos de luxo
Autor: Marli Olmos
Fonte: Valor Econômico, 17/04/2006, Brasil, p. A3
Automóveis, notadamente os de luxo, se destacaram entre as compras de bens importados neste início de ano. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) mostram que o valor total dos veículos vindos de outros países cresceu 57% nos três primeiros meses em comparação com igual período do ano passado. Principalmente os consumidores que dispõem de recursos em torno de R$ 100 mil para comprar um carro, aproveitaram a valorização do real, que estimulou os importadores a reduzir preços. Há um ano, o luxuoso Touareg, modelo alemão da Volkswagen, era vendido a R$ 315 mil. No fim de semana os concessionários ofereciam o mesmo carro por R$ 280 mil. Marisa Cauduro/Valor Sérgio Habib, da Citroën: modelo C5 já vende 100 unidades por mês
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, a importação de automóveis totalizou US$ 274 milhões de janeiro a março. No primeiro trimestre do ano passado, os carros trazidos de outros países somaram US$ 174 milhões. Com esse salto, a participação desse produto nas importações totais do Brasil aumentou de 1,1% para 1,4%.
A fatia de modelos vindos de outros países ainda é pequena. Soma 4,7% do mercado total de automóveis, dominado pelos modelos populares, fabricados no Brasil. Mas os valores unitários são altos. Os modelos esportivos da alemã Porsche custam entre US$ 126 mil e US$ 269 mil. Essa marca registrou aumento de vendas de 165,3% no acumulado do ano, segundo dados da Associação Brasileira dos Importadores de Veículos (Abeiva).
"O consumidor dessa faixa é bem informado, fez contas e percebeu que o momento é bom para comprar", avalia o especialista de varejo automotivo Francisco Trivelato. Nessa faixa de consumo, não há quem resista a lançamentos de modelos com o dólar baixo. Marcel Visconde, diretor da Stuttgart Sportcar, importadora da Porsche, conta que a marca foi renovada nos últimos 18 meses. E para ele, esse fator pesa mais do que o real valorizado em relação ao dólar. A empresa planeja vender neste ano 30% mais do que no ano passado, diz o executivo.
A BMW registrou crescimento de 49,2% no primeiro trimestre. Já a Ferrari vendeu nove unidades no acumulado deste ano. Mas isso já representa um incremento de 28,6% em comparação com igual período do ano passado. Cada carro da marca italiana custa em torno de R$ 1 milhão.
A tendência de crescimento no primeiro trimestre deve se acentuar daqui para a frente. A Citroën acaba de reduzir o preço do seu importado C5 de RS$ 114 mil para R$ 98 mil. Com isso, o presidente da empresa, Sérgio Habib, disse que a média mensal de vendas do modelo, que se situou em 50 unidades nos primeiros três meses, já passou para 100 unidades.
"Com o dólar a R$ 3,00 a importação de alguns carro é inviável, mas com R$ 2,20 já vale a pena", destaca. O executivo afirma, porém, que hoje o consumidor de veículos importados está muito mais cauteloso do que no início da década de 90, quando a febre pelos modelos estrangeiros levou muita gente a se arrepender do negócio quando, mais tarde, com a alta do dólar e conseqüente descontinuidade de algumas linhas de produtos, surgiram problemas de peças de manutenção caras.
Para o consultor da Trevisan Richard Dubois, especialista no setor automotivo, existe demanda reprimida no segmento de alto luxo, onde estão os importados. "Os volumes importados em 2003 e 2004 foram muito fracos", lembra.
Além da expectativa de que o consumidor continue aproveitando a valorização do real, os volumes de importação de veículos deverão continuar crescendo por conta de lançamentos de veículos produzidos no México. Duas montadoras, a Volkswagen e a Ford ,já decidiram começar a trazer veículos daquele país, aproveitando o acordo de intercâmbio comercial livre de impostos.
Além disso, a produção de veículos na Argentina encontra-se em franca recuperação. E muitas montadoras estão elevando o ritmo de produção nas fábricas argentinas porque o país oferece maior vantagem cambial para exportação. Isso inclui vendas para o Brasil.