Título: BC 'exporta' tecnologia bancária para Rússia
Autor: Alex Ribeiro
Fonte: Valor Econômico, 11/05/2006, Legislação &, p. C3
O Banco Central está "exportando" para outros países a sua experiência em áreas como metas de inflação, sistema de pagamentos e supervisão bancária. O mais novo convênio está sendo assinado com a Rússia, onde o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, está mantendo ontem e hoje uma série de encontros com autoridades monetárias locais. Ruy Baron/Valor O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles: interesse das autoridades russas é pelo sistema de metas de inflação implementado pelo Brasil
A Rússia tem interesse em conhecer melhor o sistema de metas de inflação, por isso irá mandar uma equipe de técnicos ao Brasil. O BC já manteve cooperação, formal ou informal, com instituições correspondentes de países como Moçambique, Indonésia, China e Ucrânia.
Pelo regime adotado na Rússia, o Banco Central busca uma inflação anual de 9% (hoje o índice oscila entre 11% e 12%), mas sem o arcabouço institucional que existe no Brasil, onde a meta é definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), as decisões sobre juros são tomadas pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do BC e existe todo um sistema de comunicação com o público, com a divulgação de atas e relatórios.
Outra área que atrai os russos é a de tecnologia bancária. Lá, existem cerca de 2 mil bancos, mais de 12 vezes o número de instituições existentes no Brasil, mas o sistema de supervisão ainda é incipiente para os padrões internacionais. O país está implantando agora a exigência de capital mínimo de Basiléia.
Na comitiva brasileira, também foram incluídos representantes de bancos públicos e privados, que vão apresentar aos russos a tecnologia bancária existente no Brasil. "O Brasil é reconhecido mundialmente por sua excelência na área de tecnologia bancária", afirma o secretário-executivo do Banco Central, Milton Luiz de Melo, que acompanha Meirelles na viagem.
O Brasil tem dois interesses no intercâmbio com os russos: 1) criar linhas de financiamento de comércio exterior; 2) atrair pelo menos um pedaço dos capitais disponíveis naquele país, que registra altos superávits em conta corrente e tem US$ 240 bilhões em reservas internacionais.
Nos últimos anos, o Brasil colaborou com BCs de outros países em várias áreas, incluindo administração de reservas, metas de inflação e sistema de pagamentos. Em 2005, a China colocou em operação uma pesquisa de expectativa de mercado fortemente baseada na experiência brasileira. Lá, existe até o sistema Top 5, que seleciona os economistas com o maior índice de acerto nas suas projeções. O que chama a atenção no exemplo brasileiro é o fato de a pesquisa ser totalmente automatizada, permitindo conhecer em tempo real a evolução das expectativas. O sistema foi replicado também, com adaptações, em países como a Argentina e Colômbia.
Os modelos matemáticos do regime de metas inflação despertam a atenção porque são reconhecidos como uma experiência bem sucedida em uma economia emergente, adotado em um contexto de inflação alta. Existe o interesse, por exemplo, pelos modelos que medem os mecanismos de transmissão da política monetária. O sistema adotado na Turquia incorpora características do modelo brasileiro.
O BC firmou cooperação com países de língua portuguesa, como Angola e Moçambique, em que foi transferida - entre outras coisas - tecnologia na área de administração de reservas internacionais. No passado recente, o BC implantou mecanismos sofisticados de gerenciamento de riscos e de benchmark.