Título: Crise deve causar queda no fluxo de investimento global
Autor: Moreira,Assis
Fonte: Valor Econômico, 05/09/2011, Internacional, p. A13

O fluxo mundial de investimentos estrangeiros diretos (IED) poderá sofrer contração de até 20% em 2011/2012 por causa da desaceleração econômica global, com empresas congelando planos de expansão pesando dezenas de bilhões de dólares.

A estimativa é da Associação Internacional de Agências de Promoção de Investimentos (Waipa, na sigla em inglês), segundo seu presidente, Alessandro Teixeira, vice-ministro do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). A entidade, que reúne 176 agências de 140 países, fará hoje em Genebra sua conferência anual, em meio a uma enxurrada de dados negativos sobre a economia global.

A situação é bem diferente do começo de julho, quando a Agência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad) previa crescimento no fluxo de IED de US$ 1,240 trilhão em 2010 para algo entre US$ 1,400 -1,600 trilhão em 2011/2012.

Agora, ao invés de crescer US$ 200 bilhões, o IED pode é ter contração em nível similar, sobretudo em 2012, e voltar ao patamar próximo do de 2008. Muitas empresas têm muito dinheiro em caixa, mas preferem preservá-lo no momento, em vez de continuar com investimentos externos, diante das incertezas do cenário global.

Mas Alessandro Teixeira ressalva que o fluxo de IED vai cair menos nos emergentes, que devem ser responsáveis por quase 70% da expansão econômica global este ano. Em alguns casos, diz ele, o fluxo vai mesmo aumentar, ilustrando com o exemplo do Brasil.

O MDIC projeta fluxo de IED de US$ 50 bilhões para o Brasil este ano, comparado aos US$ 48 bilhões do ano passado. No ano passado, pela primeira vez as economias em desenvolvimento e em transição atraíram mais da metade do fluxo de US$ 1,24 trilhão de Investimento Estrangeiro Direto.

O fluxo de IED deve sofrer contração num cenário altamente incerto. O Deutsche Bank revisou suas projeções para a economia global, de 4,5% para 3,8% de expansão em 2012, diante da deterioração nos EUA e na Europa.

O tema recorrente da divergência de "duas velocidades" no crescimento nas economias desenvolvidas e nos emergentes é ainda mais pronunciado nas novas projeções do banco alemão. Enquanto a expansão para os EUA e a UE para 2012 tem corte de quase 1 ponto percentual, nos emergentes a baixa é da metade disso. Juros reais baixos, ou mesmo negativos, e preços estáveis das commodities oferecem um apoio inusual para os emergentes, comparado ao passado.

A perda de confiança de consumidores e empresários e o declínio na riqueza das famílias podem ter consequências econômicas reais negativas se as autoridades não restaurarem a confiança em seus esforços de consolidação fiscal e na solidez dos bancos, diz o Deutsche. Um fracasso da parte dos governos nesse sentido pode tornar realidade a recessão que os investidores parecem estar precificando.

Por sua vez, o banco Credit Suisse espera também um contágio na Ásia. E projeta agora forte queda no ritmo de crescimento das economias asiáticas nos próximos meses, por causa do risco de recessão nos desenvolvidos. Enquanto o consenso aponta expansão econômica de 9,2% para a China, o banco suíço acha que não passará de 8,6%.

Nesse cenário, pode-se esperar uma mudança nítida de foco do fluxo de IED. O presidente da Waipa destaca que o fluxo, que antes se concentrava em economias desenvolvidas, está visivelmente se alterando. Exemplifica que a União Europeia atraía 50% do total em 2000. Agora, em plena crise da dívida soberana e crescendo pouco, sua fatia não deve passar dos 38%.

Os EUA, que recebiam 17% do fluxo mundial de investimentos diretos, não devem ultrapassar 14% agora. Por sua vez, as maiores taxas de crescimento do fluxo são para economias em desenvolvimento, atraindo empresas em razão do crescimento, da classe média em expansão e da estabilidade econômica

Teixeira destaca também a mudança no perfil do fluxo de investimento para as economias em desenvolvimento. Antes, o IED era mais voltado para produção, exploração de recursos naturais, em mineração, petróleo e gás. "Hoje, já temos acima de 30% em investimentos diretos na área de média e alta intensidade tecnológica nos emergentes", afirma.

"Isso tem deixado os países desenvolvidos preocupados, porque no passado a estratégia desses países não era atrair investimento qualquer, e sim investimentos com qualidade. Agora, esse fluxo começa a migrar para outras regiões, e isso inquieta fortemente os desenvolvidos", diz Teixeira.

Outra questão que vai ser discutida hoje é sobre a importância de os investimentos estrangeiros terem conexão forte com a economia local. Uma forma é rejeitar investimentos em maquiladoras.