Título: Partidos elogiam 'correção de erro'
Autor: Raquel Ulhôa
Fonte: Valor Econômico, 09/06/2006, Política, p. A7

O recuo do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em relação à verticalização provocou alívio nos principais partidos políticos. O endurecimento na regra, decidida na quarta-feira, causou dois dias de insegurança jurídica, resultou em adiamento de convenções partidárias, suspendeu negociações de alianças e chegou a ameaçar a coligação entre PFL e PSDB em torno da pré-candidatura do tucano Geraldo Alckmin.

"Acho que a aliança entre PSDB e PFL sai fortalecida porque saiu incólume de uma turbulência como essa", afirmou o presidente do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE), assim que soube da decisão do TSE. Durante o dia, ele havia feito consultas informais a ministros do tribunal, que sinalizaram o recuo.

O senador José Jorge (PFL-PE), pré-candidato a vice-presidente na chapa de Alckmin, elogiou a capacidade do TSE de "corrigir um erro" e fez uma avaliação pragmática: "Os problemas voltam a ser os de antes". Os dois partidos ainda têm divergências eleitorais em vários Estados.

Apesar da declaração otimista de Jereissati, a decisão anterior do TSE arranhou a relação entre PSDB e PFL e pode haver seqüelas. Diante da surpresa com o endurecimento das normas eleitorais decidida na quarta-feira - que, se mantidas, obrigariam a repetição da coligação nacional dos dois partidos nos Estados -, alguns pefelistas reagiram defendendo o fim da aliança.

Em reunião da Executiva Nacional ontem pela manhã, o PFL adiou para o dia 21 a convenção nacional que estava marcada para o dia 14, para aguardar melhores esclarecimentos sobre o alcance da decisão. Manteve o acordo com o PSDB, mas com cautelas. "A aliança não está desfeita, mas está aguardando regras", afirmou o líder da bancada pefelista no Senado, José Agripino (RN).

A convenção nacional do PSDB será realizada no domingo, em Belo Horizonte. Num primeiro momento, diante do endurecimento das regras da verticalização, Tasso admitiu que a coligação com o PFL corria riscos e afirmou que a convenção se limitaria a homologar a candidatura Alckmin. Seria delegada à Executiva Nacional a decisão sobre alianças. Ontem, ele mudou de idéia. Anunciou que a convenção também irá aprovar a aliança PSDB-PFL.

O presidente do PFL, senador Jorge Bornhausen (SC), o pré-candidato a vice, José Jorge, e outros pefelistas estarão presentes na convenção do PSDB. Na reunião da executiva, Bornhausen havia anunciado a decisão de apresentar um pedido de reconsideração ao TSE e, caso a resposta fosse negativa, de apresentar uma reclamação no Supremo Tribunal Federal (STF). "Estamos tomando providências jurídicas e não políticas. Se essa decisão for mantida, os partidos poderão discutir medidas políticas em comum", disse.

Bornhausen reuniu-se com Tasso antes da reunião da executiva, na qual defendeu a manutenção da coligação, argumentando que o PFL não poderia abandonar o acordo com o PSDB na primeira dificuldade. Os pefelistas também já tinham informação de que o TSE recuaria.

O PMDB foi o partido que sofreu o maior rebuliço com a decisão anterior do TSE. Os grupos a favor e contra a candidatura própria a presidente da República deram uma trégua temporária nos conflitos e decidiram, em conjunto, adiar a convenção que, por decisão judicial, seria realizada no domingo.

"Espero que o PMDB aproveite a oportunidade para manter a unidade que se deu ontem", afirmou o presidente da legenda, Michel Temer (SP), ao saber do recuo do TSE à noite. "Com a decisão inicial, havia se estabelecido um mundo novo no cenário eleitoral. Agora, com a nova posição do TSE, estamos voltando ao mundo antigo", disse.

Os pemedebistas favoráveis à candidatura própria começaram a alimentar expectativas de que a tese sairia fortalecida com o endurecimento das verticalizações. É que a ala governistas, contrária à idéia, argumentava que o lançamento de candidato a presidente impediria o PMDB de se coligar nos Estados com outros partidos que também estivessem na disputa presidencial. Mas, com a interpretação inicial do TSE proibindo essa variedade de alianças, o argumento dos governistas perdeu o sentido.

Os senadores Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, e José Sarney (PMDB-AP), principais lideranças da ala governista, contrária à candidatura própria a presidente, passaram dois dias preocupados e cautelosos. Na véspera, cancelaram jantar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e dirigentes do PT, marcado com o objetivo de discutir palanques regionais do PMDB para Lula. Essa negociação foi interrompida.

"Temos que aguardar a decisão definitiva para analisar os cenários que teremos de administrar. Para retirar essa insegurança do processo é preciso ter avaliação exata da extensão da decisão do TSE", afirmou. Na véspera, ele conversou várias vezes com o ministro Marco Aurélio Garcia.