Título: Avança plantio de uma safra pouco rentável
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Fonte: Valor Econômico, 06/12/2004, Especial, p. A12
Agronegócios Clima é favorável à produção em 2004/05, mas relação entre preço e custo pode resultar em perdas
Caminha bem o plantio da safra brasileira de verão 2004/05. Dos problemas climáticos enfrentados na temporada 2003/04, nem sombra. Aumento de área plantada garantido, oferta recorde de grãos à vista. Da terra, por enquanto, nada a temer. Mas as atenções não estão na terra. Estão nas calculadoras, nas planilhas, nas bolsas internacionais, no câmbio. E as contas são preocupantes. É consenso que o incremento do volume de produção, no caso de culturas como soja, milho e algodão, não será suficiente para compensar o aumento de custos e a queda de preços dos últimos meses. Com isso, em algumas regiões, o prejuízo é quase certo. Segundo o primeiro relatório de intenção de plantio da Conab - o segundo será divulgado na quinta-feira -, a área ocupada pelos grãos deve totalizar até 46,8 milhões de hectares em 2004/05 (incluindo culturas de inverno como trigo e milho safrinha), 2,2% mais que em 2003/04 e o equivalente a quase dois estados de São Paulo. A produção total tende a somar até 130,9 milhões de toneladas, um salto de 9,8%. Ainda que as maiores altas relativas de área e produção previstas sejam as da primeira safra de amendoim, o destaque é a soja, carro-chefe do campo nacional. A área com o grão deve crescer até 5,9%, para 22,5 milhões de hectares, e a produção deve engordar até 22,2%, para 60,8 milhões de toneladas. Em contrapartida, os preços da soja registram forte queda no exterior e no país, em uma rota descendente também trilhada por milho, trigo e algodão. Cálculos do Valor Data mostram que os contratos futuros da soja negociados na bolsa de Chicago - principal referência mundial para as negociações do produto - acumularam queda de 30,92% de janeiro a novembro. Na mesma bolsa e em igual intervalo, o milho amarga baixa de 15,7% e o trigo, de 19,26%. Em Nova York, o algodão perdeu 39,86% do valor. "O aumento da produção não é suficiente para compensar a queda dos preços", concordam André Pessôa, da Agroconsult, e Flavio França, da Safras & Mercado. Resultados da queda de preços são as baixas do valor da produção e das exportações, diretamente responsáveis pelo superávit da balança comercial do país. Conforme Fabio Silveira, da consultoria MSConsult, a receita ("da porteira para dentro") gerada por algodão, arroz, feijão, milho, soja, trigo e outros grãos, que deve atingir US$ 40,8 bilhões em 2004, 16,6% mais que em 2003, tende a recuar para US$ 38,9 bilhões no ano que vem. Já as exportações dos agronegócios (incluindo todos os produtos), estimadas em seu critério em US$ 30,6 bilhões este ano (US$ 35 bilhões nos parâmetros do Ministério da Agricultura), 30,8% mais que em 2003, deverão cair para 27,5 bilhões em 2005. "Se o setor mantiver no próximo ano o superávit de US$ 30 bilhões previsto para 2004 será muito bom, mas a expectativa é de queda. Só a exportação de soja deverá ser US$ 1 bilhão menor", diz Antônio Donizeti Beraldo, chefe do departamento econômico da Confederação da Agricultura e Pecuário do Brasil (CNA). Sim, é bom lembrar que a valorização do real em relação ao dólar, para as exportações, não é benéfica. Como ninguém gosta de perder faturamento, já seriam más notícias para produtores e agroindústrias. Mas o cenário nos dois casos é mais preocupante em virtude do aumento dos custos de produção, principalmente de insumos como fertilizantes, defensivos e máquinas. A Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), por exemplo, calcula a alta média para soja e milho em cerca de 20%. "Teremos um ano mais difícil que os últimos três", diz João Paulo Koslovski, presidente da entidade, que também reclama da escassez de crédito oficial com juros controlados. Com essas novas variáveis na equação, o problema para os produtores passa a ser de rentabilidade. Projeções da Agroconsult sinalizam que em regiões como Primavera do Leste (MT), a rentabilidade da soja cairá de 34,4% em 2003/04 para 1,4% em 2004/05; em Campo Mourão (PR), sede da Coamo, maior cooperativa do país, o recuo estimado é de 52,4% para 20,2%. No caso do milho, em Cruz Alta (RS) a rentabilidade pode descer de 29,6% para 6,2%, e em Rio Verde (GO) de 3,6% para 7,5% negativos. "Nesse cenário, a dúvida é qual será o fôlego financeiro dos produtores para usar um bom nível de tecnologia e fazer uma boa safra", observa Tarcísio Minetto, consultor da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Rio Grande do Sul (Fecoagro). "No milho, se o preço cair mais, acaba com o setor", responde Ivanir Maia, assessor da Associação de Agricultores e Irrigantes do Oeste da Bahia (Aiba). "O produtor está com medo", afirma Márcio Donizetti Santo, diretor-executivo da Associação Mineira dos Produtores de Algodão. "O que preocupa é a perda de rentabilidade", completa Pery Coelho, presidente do Instituto Riograndense do Arroz (Irga). Para a corrente preocupada com as metas inflacionárias de 2005, não deixa de ser um cenário tranquilizador, porque pressupõe que a pressão dos alimentos será pequena. Mas, para os indicadores de crescimento do país, é um contra-peso que podia não existir. Segundo a CNA, o PIB do agronegócio (incluindo pecuária), que nos últimos quatro anos apresentou taxas de crescimento elevadas e foi vital para evitar uma recessão econômica, corre o risco de amargar variação negativa em 2005. Em 2004, a previsão é de aumento de 3,2%, metade da taxa de 2003. Como do ponto-de-vista do negócio as nuvens se fecham no horizonte para produtores e agroindústrias, as condições climáticas favoráveis ao desenvolvimento da safra chegam a se transformar, paradoxalmente, em uma ameaça. Quanto melhor o clima, maior a produtividade e mais gorda a safra - e, portanto, maior a pressão sobre os preços. "A perspectiva climática é muito boa para a agricultura", confirma Francisco de Assis, chefe do Serviço de Previsão do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). O "El Niño" começa a ser sentido, mas só deve atrapalhar os produtores do Nordeste, que poderão enfrentar um período de seca mais rigoroso. Por enquanto, nem sinal de chuvas prejudiciais no Centro-Oeste e estiagem no Sul, fatores que, junto com o fungo da ferrugem da soja, serviram para reduzir em mais de 10 milhões de toneladas a safra de grãos 2003/04. Assim, evolui o plantio da safra de soja que, segundo a Agência Rural, cobriu até 3 de dezembro 89,4% da área total prevista no país, ante 89,2% da mesma época do ano passado. Destaca-se o Mato Grosso, maior Estado produtor, com 95% dos trabalhos concluídos. Acompanhamento da Céleres sinaliza que, no caso do milho, 84,2% da área do Centro-Sul foi plantada, 2,9 pontos percentuais a menos que em 2003. Números que mostram que o atraso inicial, reflexo em parte das dificuldades de mercado - que travaram compras de insumos e paralisaram vendas antecipadas - foram superadas. Ciente da situação, o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, tem dito nas últimas semanas para o setor se preparar para pelo menos dois anos difíceis. O "boom" acabou, e o agronegócio terá que conviver com isso.