Título: Efeito colateral
Autor: Rosa,Silvia
Fonte: Valor Econômico, 20/09/2011, Investimento, p. D1
A preocupação com um possível calote do governo da Grécia e a consequente contaminação do sistema financeiro da Europa voltaram a assombrar os investidores, levando as ações dos bancos a fecharem novamente em forte queda ontem no mundo inteiro. E as instituições brasileiras, apesar da grande expansão do crédito, sofrem o efeito colateral da piora do setor lá fora e da perspectiva do crescimento menor da economia doméstica este ano. No Brasil, o Índice Financeiro (IFNC) tem perda de 15,4% no ano até ontem.
A queda, porém, pode trazer oportunidades de compra. "Vemos como exageradas as desvalorizações de algumas ações do setor, sobretudo dos bancos de grande porte", diz Aloisio Lemos, analista da Ágora Invest.
Os bancos franceses, mais expostos aos papéis da dívida soberana da Grécia e da Itália, foram os que mais sofreram neste ano. O Société Générale lidera as perdas entre as instituições, com queda de 55,13% no ano. Na quarta-feira a agência de classificação de risco Moody´s rebaixou a dívida de longo prazo dos bancos franceses Crédit Agricole e do Société Générale. E, ontem, após o fechamento, a Standard & Poor"s também reduziu o rating da Itália, de "A+" para "A", e manteve sua perspectiva negativa, o que deve ter impacto nos mercados hoje.
A situação havia melhorado na semana passada, quando os bancos centrais dos Estados Unidos e União Europeia ofereceram linhas de crédito em dólares para as instituições. Mas se agravou no fim de semana, após os ministros das Finanças da zona do euro adiarem para outubro a liberação da próxima parcela de ajuda à Grécia, de € 8 bilhões.
Os próximos alvos de possíveis rebaixamento seriam os bancos da Espanha e Portugal, em função da vulnerabilidade das instituições à dívida soberana desses países, afirma João Augusto Salles, economista da Lopes Filho.
O maior risco para os bancos brasileiros, segundo os analistas, seria a elevação do custo de captação e restrição das linhas de crédito internacionais. "Diferentemente do aconteceu em 2008, durante a crise internacional, os bancos centrais dificilmente deixariam um banco grande sucumbir, como ocorreu com o Lehman Brothers ", afirma Salles.
A maior aposta dos analistas é nas ações do Bradesco e Itaú Unibanco. As ações preferenciais deste último, as mais líquidas, acumulam queda de 24,5% no ano, superior à do Ibovespa, de 17,6%. Pela primeira vez, a relação preço sobre o valor patrimonial da ação do Itaú, de 1,53 vezes, está abaixo da do Bradesco, de 2,10 vezes, segundo dados da Economática.
O Itaú tem sido punido pelos investidores depois de apresentar um aumento dos níveis de inadimplência dos empréstimos com atraso superior a 90 dias, que passou de 4,2% no primeiro trimestre para 4,5% no fim de junho, com elevação principalmente na carteira de pessoa jurídica.
Além disso, o aumento das despesas financeiras e das provisões contribuíram para reduzir os ganhos do banco, que vieram abaixo da expectativa do mercado. O lucro líquido no segundo trimestre cresceu 14%, para R$ 3,6 bilhões. "Esse ajuste deve durar pelo menos até o próximo trimestre, com os investidores aguardando se haverá uma melhora dos indicadores operacionais", afirma Luciana Leocádio, analista da corretora Ativa, que está com recomendação de compra para o papel.
A Ágora também está com recomendação de compra para o Itaú, com preço-alvo de R$ 38 para 2011, o que representa um potencial de valorização de 30%, em relação ao fechamento de ontem.
Com a redução do ritmo de concessão de crédito, a corretora reduziu os preços-alvos para as ações dos bancos, citando pressões maiores nas margens financeiras e impactos nos indicadores de qualidade de crédito, que tendem a afetar os resultados e a rentabilidade das empresas.
As ações do Banco do Brasil são as preferidas da Ágora no setor. A projeção é de um preço-alvo de R$ 33 para o papel, o que significa um potencial de valorização de 26%. Apesar de apresentrar maior Retorno sobre o Patrimônio (ROE) anualizado entre os bancos brasileiros, que foi de 23,3% ao final do segundo trimestre, o banco ainda mantinha múltiplos descontados em relação aos seus concorrentes. A instituição era negociada a uma relação de Preço sobre o Lucro (P/L, medida que indica o tempo de retorno para reaver o investimento) de 6 vezes, para 9,15 do Itaú e de 10,06 do Bradesco.
O analista da Ágora acredita que o banco deverá reduzir nos próximos meses o ritmo de concessões de crédito direcionado e aumentar a participação do segmento de médias empresas.
O BB também anunciou ontem que irá elevar em R$ 79 bilhões a oferta de crédito para pessoa física no último trimestre do ano, por meio das linhas de empréstimo consignado, financiamento à compra de automóveis e crédito direto ao consumidor (CDC).