Título: Setor de eletrônicos é a exceção em um ano de ótimos resultados
Autor: Ana Maria Freitas
Fonte: Valor Econômico, 06/12/2004, Exportações, p. F2
Com a única exceção dos equipamentos eletrônicos, no período de janeiro a setembro deste ano, em todos os setores produtivos as exportações brasileiras registraram forte e generalizado crescimento, constatado nos números divulgados pelos boletins da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex). Tanto na quantidade, que se elevou nos diferentes ramos, quanto nos preços, na maioria deles os resultados foram absolutamente excepcionais. As razões, conforme dirigentes de entidades dos exportadores, foram fatores conjunturais externos e internos, os quais permitiram superar a projeção de US$ 80 bilhões feita no início de 2004, atingindo, em novembro, US$ 95 bilhões, com perspectivas à marca dos US$ 100 bilhões até o fim do ano. "Vou cobrar champanhe do ministro Furlan", afirmou no encerramento, em São Paulo, dia 24 de novembro, do 24.º Enaex, Encontro Nacional de Comércio Exterior, Benedicto Fonseca Moreira, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). O Enaex teve a presença do ministro do Desenvolvimento, da Indústria e do Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan. No início de 2004 a perspectiva de saldo comercial de US$ 80 bilhões era vista com ressalvas. "Acharam que estávamos loucos. Mas até agora o crescimento foi de 30% e pode aumentar ainda mais até o fim do ano", comemora José Augusto de Castro, vice-presidente da AEB. Segundo ele, esses "são números tão fantasticamente positivos que nenhum otimista seria capaz de prever." Diante de uma perspectiva de mercado interno ruim, desde o primeiro semestre, mesmo sem esforço, a soja dominou no período, o que, aliado à quebra da safra americana e ao aumento da demanda da China, fez os preços no mercado internacional dispararem. Em seguida à soja, registrou-se a "explosão" do minério e das carnes - ajudadas pela febre aftosa na Argentina, o problema de contaminação nos EUA e a gripe das aves no Sudeste Asiático, além da Guerra do Iraque. Como grande produtor agrícola, o Brasil foi favorecido. Além disso, os preços aumentaram em função da quebra da safra de soja americana. Tais fatores foram preponderantes para que as exportações ultrapassassem e muito a expectativa inicial, registrando excepcional saldo comercial. "Para a economia brasileira como um todo é um resultado excepcional, porque eleva o superávit comercial, que vai ultrapassar os US$ 32 bilhões", calcula Castro. O balanço superavitário evita que o Brasil tenha de captar recurso externo. No resultado da alta do PIB (de 5,9% no acumulado nos nove primeiro meses do ano) a exportação vai contribuir com 2,5% desse crescimento. "Sozinha ela proporciona 1 milhão de novos empregos - para cada US$ 1 bilhão de exportação são gerados 50 mil empregos diretos e indiretos", diz o vice-presidente da AEB. Entre os países compradores figuraram, em 2004, principalmente, ainda, os Estados Unidos e países da Europa, (que adquirem commodities - soja, derivados e minérios), a Argentina, que bateu recorde em volume de importação de automóveis, celulares, caminhões e motores (US$ 7 bilhões), a China, cujo forte ainda são as commodities e que este ano registra alta de 20% com um total de importações de US$ 6 bilhões (US$ 1 bilhão a mais que em 2003). O Oriente Médio também adquiriu commodities e produtos manufaturados. "O crescimento entre esses é equivalente. Cresceu menos para os EUA", registra Castro. Para Rubens Barbosa, presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp, países tradicionalmente compradores como os do Oriente Médio também inflaram muito sua contribuição, em torno de 1.000%, embora os níveis sejam baixos e não significativos, indica ele, lembrando que, da exportação brasileira, 75% é dirigida aos EUA (23% a 24%), União Européia (22% a 23%) e América do Sul (22% a 23%). Somando-se a esses mercados os do Japão e da China, totaliza-se quase 90% da cota de exportação. Nesse sentido, os chamados países complementares - para onde se dirigiu o esforço do governo - ainda preenchem os demais 10%. Roberto Gianetti, diretor da Funcex, também constata que apesar dos números a posição dos exportadores não é de euforia. "O desempenho nos últimos 20 anos foi medíocre", diz. "E nessa maratona estamos na rabeira, lá atrás." Um dado percebido pela AEB é que o número de novas empresas exportadoras cresceu em 1.300, passando a 19. 000 exportadoras, o que indica que as empresas estão-se internacionalizando. "O ministro Furlan tem um desempenho formidável", reconhece Gianetti, lembrando que isso terá impacto positivo nos resultados favoráveis da expansão de mercados não tradicionais. "Mas aí não há muito a crescer", diz. "O futuro está associado aos mercados desenvolvidos", afirma.