Título: Novo plano de resgate grego é forte, mas de difícil aprovação
Autor: Moreira ,Assis
Fonte: Valor Econômico, 27/09/2011, Finanças, p. C2
Um novo plano para frear a crise na zona euro, socorrendo os países mais endividados e reforçando os bancos, era alvo de intensa especulação ontem nos mercados. O sentimento era de que as autoridades, enfim, começam a reagir, mas dificilmente resolverão os problemas de maneira duradoura na zona do euro.
Depois da humilhação sofrida durante a assembleia anual do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington, na semana passada, recebendo intensa pressão de todas as partes do mundo para resolver sua crise, autoridades europeias se debruçam sobre três medidas fortes.
Uma delas é que a Grécia poderá ser autorizada a declarar "default", de forma a apagar 50% da dívida, permitindo aos gregos a permanência na zona do euro e recebendo ajuda oficial. O estoque da dívida cairia de 150% para algo mais administrável, em torno de 75% do Produto Interno Bruto (PIB).
Também está em estudo novo mecanismo envolvendo o Banco Central Europeu (BCE) para alavancar os recursos do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF, na sigla em inglês), que passariam de € 440 bilhões para algo entre € 2 trilhões e € 3 trilhões. Ou seja, no mínimo cinco vezes mais do que atualmente. Cerca de € 1,5 trilhão poderão cobrir apenas as necessidades de financiamento da Itália, Espanha, Grécia, Portugal e Irlanda, países com mais necessidades de financiamento até o fim de 2014. Isso daria tempo para as autoridades evitarem o colapso do euro no rastro de um calote grego.
A terceira medida prevê forte recapitalização dos bancos da zona do euro. O FMI estima ser necessário mais de € 200 bilhões. Alguns analistas vão além e calculam que somente os bancos franceses e alemães precisariam de € 390 bilhões, caso algum país da região declare moratória.
A ideia é que o novo plano seja adotado na cúpula de chefes de Estado e de governos europeus em 17 e 18 de outubro. Ele então seria apresentado à cúpula do G-20 no começo de novembro em Cannes (França).
Olli Rehn, comissário do euro para assuntos monetários, limitou-se a confirmar que discussões prosseguem sobre a expansão do EFSF, como pressionaram países emergentes, o FMI e os Estados Unidos.
Já o ministro das Relações Exteriores da Polônia, Radek Sikorski, chegou a rezar publicamente para que a zona euro não seja desmontada durante uma missa em Varsóvia, quando estava acompanhado de outros integrantes do governo.
Boa parte de analistas permanece cética sobre a capacidade das autoridades realmente aprovarem um novo plano, considerado forte, mas politicamente difícil de ser colocado em prática.
"Se adotado, poderia ajudar a estabilizar a zona do euro e os mercados financeiros, mas há dúvidas sobre sua implementação", diz Chris Scicluna, da Daiwa Capital Markets, em Londres. Por exemplo, o plano parece desenhado para evitar o voto nos parlamentos. Mas isso é extremamente difícil. Na Alemanha, a Corte Constitucional limita essa possibilidade.
Além disso, é complicada a participação do Banco Central Europeu (BCE). A expectativa nos mercados é de que os fundos adicionais para o EFSF seriam fornecidos pelo BCE. Os governos entrariam com apenas € 400 bilhoes, dos€ 2 trilhões adicionais.
Outra dificuldade é que o novo plano só autorizaria a redução da dívida da Grécia. Mas os outros periféricos, como Portugal, vão querer também baixar seu engajamento. Em todo caso, mesmo o corte de 50% da dívida grega seria suficiente para deixar a dívida em nível sustentável e permitir que Atenas volte no curto prazo a captar recursos no mercado.
A economista Jennifer McKeown nota também que o novo plano não resolve o problema sério de competitividade enfrentado pela periferia europeia. A Alemanha nem quer falar nisso. "Mesmo se grande parte da dívida do governo for anulada e for obtido financiamento de médio prazo, a falta de crescimento econômico significa que a dívida pública voltará a crescer. Os problemas da periferia não vão ser resolvidos até que eles deixem a zona do euro e desvalorizem suas moedas", diz ela.
Sem consenso entre os governos sobre a solução a ser adotada, a atenção está focada na votação no Parlamento alemão na quinta-feira, ainda sobre o plano acertado em 21 de julho, que ampliou o poder de fogo do EFSF.