Título: Crises e gestão duvidosa marcam história da aérea
Autor: Janaina Vilella e Vanessa Adachi
Fonte: Valor Econômico, 08/06/2006, Empresas, p. B3
Congelamento de tarifas, choques macroeconômicos, conflitos de interesse e aumento da concorrência foram alguns dos fatores que marcaram a história da Varig nos últimos 25 anos, contribuindo decisivamente para a sua decadência.
Boa parte dos obstáculos que levou à situação atual fugiu totalmente ao controle da companhia aérea. É o caso da Guerra do Golfo, em 1991, e dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, que fizeram o preço do petróleo disparar e reduziram o número de passageiros.
As perdas da Varig começaram no governo do general João Baptista Figueiredo (1979-85), quando a empresa encomendou cinco aviões modelo Jumbo 747-300. A moratória declarada pelo Brasil em 1982 impediu a empresa de obter, nos Estados Unidos, crédito para a compra das aeronaves.
Sem alternativas, a empresa negociou um financiamento com instituições do Japão. Mas, com a valorização do iene, o custo das aeronaves duplicou, inviabilizando a amortização. Os aviões foram devolvidos e desativados em 1999, e ainda restou uma dívida de US$ 250 milhões.
Não bastassem os débitos em moeda estrangeira, o congelamento das tarifas entre 1986 e 1991 também resultou em um pesado aumento de custos, que continuaram subindo. De 1987 a 1992, a Varig só teve prejuízos com sua atividade. (ver gráfico ao lado)
Até hoje, a empresa reivindica na Justiça o pagamento de cerca de R$ 3 bilhões referente aos prejuízos acumulados nesse período.
Mas foi em meio a esse período turbulento que a Varig viveu seus maiores momentos de glória. Entre o fim dos anos 80 e início dos anos 90 ela chegou a operar com 120 aeronaves e a ter 88 escritórios no exterior.
Depois do congelamento, a Varig também enfrentou o fim do monopólio dos vôos internacionais, em 1992, no governo de Fernando Collor de Mello. "Isso foi um forte golpe para a companhia", diz Carlos Luiz Martins, ex-presidente da empresa (2003-2005).
A abertura de mercado, na avaliação de antigos administradores da empresa, talvez tenha sido feita de uma forma afoita, sem dar o devido tempo para a companhia se adaptar à nova realidade.
Mas não foi apenas o "acaso" que levou a empresa à situação de hoje. Do lado operacional, a companhia não vai bem faz muito tempo. De 1986 até o ano passado, o resultado da Varig obtido apenas com a sua atividade (excluída toda a parte financeira) foi negativo oito vezes. Só no ano passado, esse prejuízo operacional foi de R$ 99,5 milhões.
Com o agravamento da crise, a partir de 1995, a Varig passou pelas mãos de 11 presidentes e um comitê. As sucessivas mudanças também contribuíram para a falta de continuidade administrativa dentro da empresa. Só em 2005, quatro executivos passaram pelo cargo de presidente.
"A reestruturação da companhia passa por demissões, racionalização de rotas e redução de custos. Todas as administrações tentaram fazer isso, mas foram impedidas pela Fundação Ruben Berta", afirma Arnim Lore, ex-presidente da Varig por três meses.
Ex-presidentes ouvidos pelo Valor acreditam que a Fundação foi um entrave à capitalização da companhia, justamente nos momentos em que ela mais precisou. Dona de 87% das ações da Varig, a fundação transformou os funcionários em proprietários da empresa, o que, segundo esses interlocutores, acabou por gerar conflito de interesse.
Em 1945, os acionistas da Varig aprovaram a transferência do controle acionário da empresa para a FRB. Um dos executivos que preferiu não se identificar, lembrou que "o fato de o presidente da fundação acumular o cargo de presidente da companhia até 1995 interferiu em decisões importantes na vida da Varig". Segundo esses ex-presidentes, a Fundação deveria ter aberto mão do controle da Varig já em 2002, quando o BNDES acenou com a possibilidade de injetar capital na aérea, e não ter esperado a situação chegar ao ponto de 2005, quando a Varig entrou com pedido de recuperação judicial no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.
"A Varig acabou destruída por sua péssima administração e também pela omissão do governo. Por anos permitiu-se que a Varig acumulasse dívidas fiscais, trabalhistas", diz Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES, que tentou viabilizar um plano de salvamento para a empresa quando estava no banco estatal.
Fruto do acaso, de uma gestão questionável ou de uma combinação de tudo isso, o fato é que a Varig que chega ao leilão de hoje tem um patrimônio líquido negativo de cerca de R$ 8 bilhões.