Título: Valor dos metais está abaixo de 2010
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Fonte: Valor Econômico, 30/09/2011, Empresas, p. B10

O terceiro trimestre representou para as commodities metálicas o início de um novo patamar, mais baixo, marcado pelas pressões da aversão ao risco que tem contagiado o mercado internacional e está desenhando novas expectativas para as relações de oferta e demanda na economia global.

O trimestre começou traçando um caminho de alta, mas essa tendência se inverteu em agosto, com um vale que permaneceu em setembro. Foi nestes três meses que as cotações dos metais não ferrosos chegaram a um nível abaixo do que estavam um ano antes. Se o cenário continuar o mesmo, todos os metais terminarão o ano em valor bem menor do que registraram em 2010.

"Vivemos um ajuste estrutural. É um alinhamento de preços para baixo entre as commodities", afirma o consultor em mineração da Ad Hoc Consultores e ex-secretário nacional de Minas e Metalurgia, Luciano Borges. Com a cotação chegando a US$ 18.455,00 a tonelada métrica no fechamento da sessão de ontem, o níquel disponível em três meses já apresenta retração de 19,3% em doze meses. O zinco também já está bem abaixo do preço verificado um ano antes: aos US$ 1.897,50 a tonelada métrica, a queda em doze meses alcança 14,3%.

Nem o alumínio e o cobre - que há um pouco mais de uma semana ainda estavam positivos nessa base de comparação - resistiram às pressões. Ontem, o alumínio apresentou recuo de 4,57% em doze meses, precificado a US$ 2.222,50 por tonelada métrica e o cobre acumulou perda de 12,99%, no patamar dos US$ 6.996,00 por tonelada métrica. Quando se analisa o período de janeiro até agora, a queda é mais intensa. O declínio do alumínio marca 9,9% e o do cobre atinge 28,3%. "A fome pelas commodities se abateram com a estagnação da economia global, levando os preços dos metais de base de volta a baixas não vistas desde 2010", afirmou o Standard Bank, em relatório.

As pressões sobre as cotações dos metais vêm principalmente das expectativas de que a demanda global não deve resistir ao baixo crescimento das economias centrais, importantes destinos de exportações desses insumos. Os mercados refletiram o susto dos agentes diante do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) abaixo do esperado nos EUA - acompanhado de um embate político entre republicanos e democratas -, além do agravamento da crise da dívida europeia e a desaceleração das economias emergentes, inflacionadas.

A volatilidade dos mercados financeiros diante desse cenário de incertezas contamina as cotações de metais, mesmo que os fundamentos da oferta e demanda física pelas commodities mostrem um futuro bem mais animador. "Antes, se negociava o contrato de metais com o produtor. Hoje os metais são também ativos financeiros, o que faz com que a transmissão as expectativas do mercado financeiro para eles aconteça de modo muito rápido", enfatizou Borges. "E estamos vivendo um momento de expectativas muito exacerbadas", completou o especialista.

É uma ideia comum a diversos analistas que a alta demanda dos mercados emergentes, principalmente da China, deve sustentar a consumo e o preço dos metais no longo prazo. Basta saber quando esse fundamento econômico ultrapassará a volatilidade gerada pelo mercado financeiro. Borges vai além. Segundo ele, os fundamentos serão reforçados por mudanças nas políticas públicas das economias atualmente em crise, que sairão do foco na política fiscal para as políticas públicas expansionistas. "As pessoas não estão prestando atenção na sinalização dos governos americano e europeus. Haverá políticas contracíclicas, com investimentos em infraestrutura para melhora do emprego. E os minerais serão os primeiros a serem consumidos nessa situação", afirma.

Para a analista Cristiane Mancini, da consultoria Lafis, essa realidade de recuperação nos preços dos metais já deve acontecer na virada do ano, impulsionada pelo mercado interno e o movimento de urbanização chineses. "O fundamento é de alta e a precificação é baseada nisso", diz a especialista.

Apesar de a demanda pelas commodities em geral virem das mesmas origens, as perspectivas para os preços internacionais do petróleo não são as mesmas dos metais. O Brent, de Londres - que fechou aos US$ 102,48 o barril ontem, com queda de 8 centavos de dólar - apresenta recuo de 8,8% no acumulado do trimestre. No mês de setembro, caiu 10,1%.

"Para o petróleo também vivemos uma mudança de patamar para baixo. Mas a faixa dos US$ 80 deve ser mantida até o fim do ano", afirma o analista da Ativa Corretora, Ricardo Correa. "Haverá ainda um longo período de baixo crescimento dos EUA e da Europa. As perspectivas para a atividade econômica não devem mudar de uma hora para a outra", completa Correa. Segundo o analista da Lafis, Osmar Sanches, os sinais de menor ímpeto de consumo na China têm pressionado os preços do petróleo. "Para voltar à escalada, teria de ter uma mudança de panorama bastante grande", afirma Sanches.