Título: Sobre câmbio, produção, salários e emprego
Autor: Claudio S. Dedecca
Fonte: Valor Econômico, 05/06/2006, Opinião, p. A12
Nas últimas semanas a mídia tem veiculado diversas notícias sobre as decisões das empresas montadoras de automóveis e caminhões sobre redução de emprego e deslocamento de produção nos espaços nacional ou do Mercosul. A principal razão apontada pelas empresas tem sido a valorização cambial, que vem reduzindo os ganhos obtidos com a exportação de veículos.
As empresas sinalizam duas estratégias de pressão sobre o governo. Uma diretamente orientada para a política econômica, ao explicitarem o risco cambial para suas exportações. E uma outra baseada na sinalização de que a queda das exportações provocará redução de seus níveis de emprego e, possivelmente, de contenção dos salários.
Não existem indicações que tais pressões exercidas pelas empresas sejam mera cortina de fumaça. Ao contrário, elas expressam uma estratégia de reorganização das plantas produtivas destas empresas no Brasil, como parte de um novo ciclo de reestruturação que vêm empreendendo no mundo.
Por diversos motivos, que não cabe aqui explorar, o complexo automotivo é caracterizado por um baixo dinamismo em termos de crescimento de seus mercados, em especial, nos países da América do Norte e da Europa. Desde os anos 1980, as grandes empresas, devido a esta restrição, têm buscado reduzir custos de produção através do desenvolvimento de redes com o objetivo de obterem menores custos, encontrados, em geral, nos países em desenvolvimento. Ademais, buscaram introduzir inovações voltadas para a ampliação ou renovação do mercado, como a adoção do leasing para as pessoas físicas. Estas iniciativas atenuaram a baixa rentabilidade conseguida na produção de veículo, mas elas não foram capazes de restabelecer uma trajetória de expansão sustentada que criasse um novo período de bonança. Portanto, a pressão por redução de custos continuou e continua sendo uma constante no complexo, levando que as empresas busquem explorar, ao máximo, as possibilidades criadas por certos países em termos de custos de produção, como tem ocorrido com a China.
Na primeira metade dos anos 1990, várias inovações organizacionais foram introduzidas pelas empresas montadoras em suas plantas produtivas no Brasil, que ampliaram acentuadamente a subcontratação nos mercados interno e externo. Esta estratégia exigiu certa flexibilidade dos direitos trabalhistas, estabelecida principalmente via os acordos coletivos, e redução do nível de emprego. Mesmo assim, a valorização cambial do período de auge do Plano Real criou fortes constrangimentos para a produção interna, induzindo uma internacionalização expressiva do processo produtivo, em termos de autopeças e de parte da oferta de automóveis para o mercado local.
A revalorização cambial dos últimos anos tende a romper os elementos que dinamizaram o complexo automobilístico brasileiro A desvalorização cambial em janeiro de 1999 restabeleceu certa proteção à produção interna, induzindo um renacionalização tanto dos insumos do complexo como da gama de automóveis disponíveis no mercado interno. O câmbio favorável contribuiu para uma redução dos custos do setor que, em um contexto de crescimento da economia internacional, se traduziu em aumento das exportações de automóveis.
A revalorização cambial dos últimos anos tende romper os elementos que permitiram dinamizar novamente o complexo automobilístico brasileiro, principalmente se consideradas as limitações do mercado interno para o processo. Como mostra o gráfico anexo, a relação salário-câmbio nas empresas montadoras se aproxima do patamar do início do Plano Real.
Segundo projeção da CSMauto, assessoria das empresas internacionais do complexo automotivo, a produção mundial irá crescer 3% a.a, até 2012. A produção brasileira e latino-americana deverá se expandir em 3,8% a.a. e a chinesa em quase 10% a.a. Do aumento estimado de produção, 30% caberá à Europa e aos Estados Unidos, 30% à China e um pouco menos de 5% ao Brasil.
Certamente, as pressões sobre os custos de produção serão recorrentes no complexo, dando vantagens competitivas aos países que apresentarem níveis mais baixos. Quanto maior a dependência do mercado externo, maiores serão as pressões por reduções de custos. Em particular, se houver desaceleração da economia internacional.
Neste sentido, a valorização cambial reforça as pressões das empresas internacionais por diminuição de custos de suas plantas locais. Reduções de salário e de emprego se tornam quase inevitáveis, em especial para um setor que não tem encontrado um mercado interno com um crescimento estável.
A superação desta situação de constrangimento requer uma política cambial mais adequada, mas principalmente a dinamização do mercado interno, o que exige crescimento sustentado da economia brasileira. Ou melhor, a existência de uma estratégia de desenvolvimento que reordene a política econômica.
As manifestações das empresas montadoras sobre redução de emprego e deslocamento de produção refletem os efeitos perversos da valorização cambial, mas, fundamentalmente, a incompatibilidade da política econômica atual com uma estratégia de desenvolvimento. Ao impor um desempenho instável e medíocre do mercado interno, a política econômica reforça posturas oportunistas das grandes empresas, ao estimular que elas privilegiem somente estratégias de curto prazo, fortemente focadas nos custos correntes de produção.
Claudio Salvadori Dedecca é professor do Instituto de Economia da Unicamp.