Título: Importação afeta empresas locais
Autor: Vera Saavedra Durão
Fonte: Valor Econômico, 06/06/2006, Brasil, p. A3
O forte aumento das importações já afeta o dinamismo de alguns setores da economia brasileira. Um dos casos mais conhecidos é o da indústria têxtil, mas o câmbio valorizado também atinge outros segmentos, ainda que em menor medida, como o de distribuição de aço.
O presidente da Rio Negro, Carlos Loureiro, diz que números preliminares mostram que em maio a distribuição de aços planos cresceu algo como 5% a 8% em relação a abril e 15% em comparação com o mesmo mês do ano passado. O número, porém, não é positivo como parece, avisa Loureiro. Para ficar no mesmo nível de abril, seria necessário um crescimento de cerca de 20%. Loureiro acredita que um dos motivos para a perda de dinamismo é que há muitas empresas importando componentes, em vez de produzi-los aqui.
Segundo ele, fabricantes de bicicletas e autopeças têm adotado essa estratégia. Ele também avalia que a demanda doméstica está se acomodando, o que aumenta um pouco a oferta do produto, num momento em que cresce a venda direta por algumas usinas. "Mas 2006 deverá ser melhor do que 2005", afirma ele, ressalvando que o ano passado foi muito ruim para o setor - a distribuição caiu nada menos que 16% em 2005. "A base de comparação é muito fraca." Neste ano, quem puxa os negócios do segmento são a indústria automobilística e a construção civil.
O diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), Fernando Pimentel, ainda não tem os números referentes ao desempenho de maio, mas acredita que deve ter sido um pouco melhor que no mesmo mês do ano passado. Para ele, o Dia das Mães, as temperaturas mais baixas observadas no Sul e no Sudeste e o crescimento de vendas relacionadas à Copa do Mundo devem ajudar o segmento a ter um segundo trimestre um pouco melhor do que o primeiro - quando a produção da indústria de vestuário caiu 4,3% em relação a 2005.
Isso não quer dizer que Pimentel esteja otimista: o câmbio valorizado tem afetado muito o setor, que perde espaço para importados. Isso explicaria por que as vendas do comércio varejista crescem em um período em que a produção da indústria de vestuário está em queda. "Fatores como um bom Dia das Mães, um outono com temperaturas mais baixas e a Copa do Mundo atenuam, mas não são suficientes para reverter os problemas causados pelo câmbio valorizado e pelos juros altos."
Para as empresas de produtos eletroeletrônicos de Manaus, maio foi um mês razoável, que poderia ter sido melhor se não fosse a greve dos fiscais da Receita Federal. Segundo o presidente do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), Maurício Loureiro, o faturamento cresceu 1,6% em comparação com maio de 2005, número que atingiria cerca de 10% se não fosse a greve.
"O Pólo Industrial de Manaus deixa de realizar negócios da ordem de US$ 33 milhões diários com esses movimentos grevistas." Mesmo assim, 2006 deve ser um bom ano para o segmento. Para Loureiro, o faturamento pode atingir US$ 21 bilhões, 11,1% a mais que em 2005. Juros menores, aumento da renda e a Copa do Mundo ajudam. A demanda interna e o câmbio valorizado, aliás, fazem com que parte dos produtos que seriam exportados sejam destinados ao mercado doméstico.