Título: G-20 pressiona Europa por solução rápida
Autor: Moreira,Assis
Fonte: Valor Econômico, 17/10/2011, Finanças, p. C10

Os ministros de finanças do G-20, reunindo as maiores economias desenvolvidas e emergentes, mantiveram a pressão sobre a zona do euro para que apresente no dia 23 enfim um plano que realmente possa equacionar o problema da divida da Grécia, recapitalizar os bancos e reforçar o mecanismo para defender de contágio países como Itália e Espanha.

A UE se autoimpôs um prazo curto para apresentar um plano "abrangente" no proximo domingo, que reflete a urgência da situação. O G-20 espera que desta vez os europeus anunciem um plano realmente incisivo para conter a crise, já que até agora reagiram tardiamente, com medidas insuficientes e aumentando custo da crise.

Se os europeus conseguirem apresentar um plano convincente, os lideres do G-20 não poderão lavar as mãos e precisarão anunciar um importante plano de ação coordenado na cúpula de 3 e 4 de novembro para recuperar mais rapidamente a economia global. Todos sabem que a situação internacional exige resposta forte, mas o movimento deve começar pela Europa, onde está o foco da crise atual, insistem negociadores.

Os ministros de finanças constataram durante o encontro em Paris a que ponto a economia mundial se deteriorou desde seu encontro anterior, há apenas três semanas, em Washington. As agencias de classificação de risco rebaixaram países e bancos europeus, significando baixa ainda maior de confiança. O banco belga-francês Dexia alarmou o mercado com o pesadelo de novo colapso tipo Lehman Brothers, que deflagrou o pior da crise de 2008. E países emergentes, que até então estavam preservados, começaram a ser afetados pela crise europeia.

As autoridades francesas e alemãs acenaram com progressos sobre o plano, e ministros do G-20 se declararam "encorajados". "Embora a situação internacional tenha se deteriorado, temos uma luz no fim do túnel", afirmou o ministro da Fazenda, Guido Mantega. O secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner, tentou também ser otimista, mas admitiu que o problema nos planos europeus "está nos detalhes".

No caso da recapitalização dos bancos, o entendimento é de que a Europa precisa fazer novos testes de estresse mais realistas sobre a exposição a divida soberana. A recapitalização terá que ser feita inicialmente com os esforços dos próprios bancos, a partir da redução no pagamento de dividendos e bônus, e se possível, colocando mais ações no mercado. Se as instituições não tiverem capacidade para fazer face ao problema por conta própria, entram os governos nacionais como segunda linha. E em terceiro, o fundo de estabilização europeu.

Outro aspecto é a barreira de fogo (firewall) para Itália e Espanha - e talvez outros países. Como a crise evolui rapidamente, o valor de US$ 440 bilhões estabelecido para o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (EFSF, sigla em inglês), com o objetivo de socorrer países em dificuldades, três meses depois parece ser insuficiente. Mas do jeito que a governança europeia é lenta, negociadores consideram impensável a UE propor um aumento desse fundo, porque significa voltar aos 17 parlamentos nacionais depois de um processo difícil e desgastante.

Pelo que filtrou no G-20, a UE considera a possibilidade de maximizar o uso dos recursos disponíveis no EFSF. A proposta seria usar os recursos atuais do fundo não apenas para emprestar, mas para dar garantias parciais a emissão de divida soberana. E para segurar o contágio, alguns países sugerem que o Banco Central Europeu (BCE) continue atuando como emprestador de ultima instância. A Alemanha, maior economia europeia, descarta essa possibilidade, pelo menos no momento.

Ao contrário da expectativa inicial, não há espaço para uma grande barganha até Cannes sobre um plano de ação global, na visão de importantes negociadores. A politica fiscal dos EUA não está sob controle apenas do executivo, e depende em larga medida do Congresso. O governo de Barack Obama apresentou plano de ampliação de emprego e investimento no curto prazo, já rejeitado pelo Senado. Há uma disputa dentro dos EUA que vai continuar sobre a politica fiscal.

Alem disso, ninguém imagina que a questão cambial da China se resolva até o encontro de Cannes. Pequim continuará sofrendo pressões. Os EUA chegaram a sugerir aos chineses que se comprometam com taxa cambial "determinada pelo mercado" por volta de 2013.

Pequim não só rejeitou a ideia, como sugeriu aos americanos que procurem suas empresas instaladas na China, mencionando como exemplo a Apple, para saber o que elas pensam da politica cambial chinesa, numa referencia indireta ao beneficio para suas exportações da China para o resto do mundo.

Para o G-20, realmente urgente é a resposta decisiva a crise do euro, não como barganha, mas porque a Europa precisa disso.