Título: Produtividade agrícola cortou emprego, aponta OIT
Autor: Assis Moreira
Fonte: Valor Econômico, 08/12/2004, Brasil, p. A4

A produtividade do trabalhador brasileiro sofreu um atraso com a expansão de apenas 12% em dez anos (1992-2001), comparados a 73% na China e 35% no Chile, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Essa situação, aponta o organismo, afeta as chances de se criar emprego decente e reduzir a pobreza no país. Na agricultura, maior sucesso comercial do país, houve um salto de 65,3% na produtividade, mas ela foi acompanhada de uma perda de emprego de 14,9%, na mesma comparação, e tampouco ajudou a combater a pobreza no país. Afetado por sucessivas crises na década de 90, o Brasil teve ainda assim um ganho de produtividade maior do que a média mundial, de 10,9%, e sobretudo maior do que o da América Latina, de 1,2%, mas registrou aumento da "enorme diferença" de riqueza por habitante.

A OIT lançou ontem o relatório mundial sobre o emprego, no qual revela que, globalmente, havia 185,9 milhões de desempregados no mundo em 2003. Mas metade dos que trabalham, cerca de 1,4 bilhão de pessoas, não tem um emprego decente. Estão mergulhadas na miséria, com apenas US$ 2 por dia para sobreviver. A organização destaca que, como grande parte dos pobres do planeta trabalha, estes não são pobres porque não têm atividade econômica, mas sim porque essa atividade é insuficientemente produtiva, e não conduz à melhora salarial para cobrir necessidades de educação, saúde, etc. A OIT reconhece que o aumento da produtividade está condicionado ao contexto macroeconômico, institucional e regulamentar. E considera que uma maneira prática para tirar milhões de pessoas da pobreza passa pela geração de empregos nos setores em que estão inseridos os realmente muito pobres. Isso passa por investimento em agricultura, já que 75% da população dos países em desenvolvimento vive na zona rural. A principal autora do relatório, a economista Dorothea Schmidt, sem ignorar o sucesso do agronegócio brasileiro, sugere que isso vai além de exportar muita soja. Um dos caminhos, ao seu ver, é a reforma agrária no Brasil para estimular a agricultura familiar, ampliar a oferta de alimentos com preços mais baixos e ter real impacto sobre os pobres. "Produtividade indica como a eficiência dos recursos é usada para gerar crescimento econômico", argumenta. Cada trabalhador brasileiro gerou US$ 12,7 mil em 1992, pulando para US$ 14,2 mil em 2001. Já na China, o PIB por pessoa empregada saltou de US$ 4,1 mil para US$ 7,1 mil. A economista compara a situação do Brasil com a China na agricultura, que ela vê como o melhor exemplo de combate à pobreza. A produtividade agrícola chinesa aumentou 36%, metade da brasileira, com cada agricultor gerando US$ 807, comparado a US$ 5,7 mil no Brasil. A diferença é que os chineses aumentaram o emprego na zona rural, onde vivem mais de 1 bilhão de pessoas. O Brasil, não. A América Latina e a África são as únicas regiões do mundo onde a pobreza não tem recuado. Com aumento insignificante de produtividade, alta do PIB abaixo da média mundial e grandes taxas de desemprego, a América Latina é ainda uma das regiões com um dos percentuais menos ruins (33%) da população vivendo com menos de US$ 2 por dia, incapazes de cobrir suas necessidades - comparado a 59% no sudeste asiático, 87% no sul da Ásia e 89% na África. O ultimo dado da OIT para o Brasil indicava que 23,7% da população vivia com menos de US$ 2. A entidade sugere aos governos centrarem suas políticas econômicas em torno da criação de "empregos decentes e produtivos" . Recomenda estímulos à geração de empregos também no setor de serviços, porque pode beneficiar tanto trabalhadores qualificados como aqueles que não o são. Igualmente, destaca a importância de pequenas e médias empresas (PMEs) para o desenvolvimento.