Título: Lula e Chirac divergem sobre causa de impasse da Rodada Doha
Autor: Paulo de Tarso Lyra
Fonte: Valor Econômico, 26/05/2006, Brasil, p. A4

Os presidentes do Brasil e da França, Luiz Inácio Lula da Silva e Jaques Chirac, assinaram ontem, no Palácio da Alvorada, protocolos de cooperação tecnológica, trocaram elogios sobre futebol, falaram de Copa do Mundo, mas expuseram suas divergências em relação à Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC). Chirac negou que a Europa seja um mercado fechado e afirmou que o continente fez uma série de progressos, sobretudo no setor agrícola. E responsabilizou os Estados Unidos pelo impasse nas conversas. "São eles que, na realidade, detêm a chave do problema. A Europa fez tudo que ela podia fazer e, honestamente, não tem mais condições de dar outros passos."

Lula discordou. "Todo mundo acha que já fez o que era possível fazer, todo mundo acha que concedeu o que poderia conceder. Mas o dado concreto é que até agora não teve acordo", disse.

Chirac chegou a comparar o volume de exportação América Latina-Europa para mostrar que o mercado francês não é fechado, como reclamam os países em desenvolvimento. "Se eu falar apenas da França, constataria que a França importa da América Latina, a cada ano, US$ 2,5 bilhões e exporta para a América do Sul US$ 400 milhões. Não se pode falar de uma dificuldade de exportação da América Latina em direção à Europa."

Chirac afirmou que a Europa fez uma série de progressos, duas reformas sucessivas na política agrícola, assumiu compromissos formais de reduzir, em torno de 45%, os direitos aduaneiros. Também reclamou que os países envolvidos na discussão não "fizeram nenhum passo significativo em direção da Europa, seja no plano da indústria, seja no plano dos serviços, então, é preciso esperar um pouco do progresso nesse campo."

Para ele, contudo, a questão essencial é a intransigência do governo americano em abrir mão de suas vantagens. "Os Estados Unidos não aceitaram modificar qualquer coisa, eles continuam a subsidiar e a ajudar o mercado interior. O gênio dos nossos amigos americanos fez crer que era um problema entre Europa e os países emergentes. Se o problema fosse apenas esse, seria resolvido sem qualquer dificuldade."

Lula reiterou que os líderes mundiais precisam debater a questão. Ele afirmou que, quando "as partes envolvidas começam a repetir o mesmo assunto, todo dia e toda hora, é preciso tirar e colocar gente com novas idéias para ver se nós conseguimos negociar". Ele lembrou que, desde dezembro, vem conversando com o próprio Chirac, com o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, com a chanceler alemã (Angela Merkel), com George Bush e com o primeiro-ministro da Espanha, José Luis Zapatero. "Hoje a decisão não é mais econômica, não é mais comercial. Eu acho que agora é uma decisão política que só os líderes políticos podem tomar", defendeu.

Os dois presidentes foram bem mais condescendentes em relação à situação política na América Latina, rebatendo as críticas de que a onda de populismo no continente possa atrapalhar o volume de investimentos na região. "A América do Sul vive um momento político muito rico. Neste continente, há 20 anos, todos os países tinham grupos que acreditavam na luta armada como solução para os problemas da política", recordou Lula.

Em relação à Bolívia, Lula disse que muitos defendiam uma reação mais agressiva à decisão de Evo Morales de nacionalizar as reservas de gás e petróleo. "Em vez de ser truculento com a Bolívia, acreditei no poder da conversa, na capacidade do diálogo." Segundo o presidente, a Bolívia, que é a dona do gás, sabe que precisa vender o produto para o Brasil. "Se a Bolívia tem o gás e o Brasil precisa comprar, nós temos que, de uma forma equilibrada, encontrar um preço que atenda aos interesses do povo da Bolívia, mas que também atenda aos interesses dos consumidores brasileiros."

Chirac disse que se encontrou com Morales duas vezes e a impressão que teve é de que o presidente boliviano está sensível ao debate. "Eu preciso dizer também que as entrevistas com o presidente Morales me levaram a constatar que é um homem que tinha que devolver a sua honra a um povo machucado", afirmou.

Durante o encontro de trabalho, no Palácio da Alvorada, foram assinados protocolos nas áreas de tecnologia, educação, de meio-ambiente e uma declaração sobre biocombustíveis, com a perspectiva de desenvolver projetos de cooperação na África e no Caribe. Quando chegou ao Brasil, na noite de quarta-feira, Chirac conversou com jornalistas franceses na embaixada, em Brasília, e se declarou admirador de Lula. No jornal "Le Monde" de sexta-feira, ele afirma: "Ele será eleito. É desejável para o Brasil, porque é um homem inteligente e razoável."