Título: PSOL é a voz da moderação na USP
Autor: Agostine,Cristiane
Fonte: Valor Econômico, 11/11/2011, Especial, p. A14
Se você não concorda com quem está falando, vote contra, mas respeite o direito democrático dele falar". Thiago Aguiar empunhava o microfone na tentativa de acalmar os ânimos de quase 3 mil alunos da Universidade de São Paulo, reunidos em assembleia geral após a prisão de 70 estudantes que ocupavam a reitoria desde o início do mês. Diretor do atual Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade de São Paulo (USP), o grupo de Thiago, denominado "Todas as Vozes" e com integrantes filiados ao PSOL, vive uma situação insólita: por ter se colocado contrário às ocupações do prédio da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e da reitoria, é posto como demasiado conservador pelas alas mais radicais do movimento universitário, responsáveis pelos atos e ligados ao Partido da Causa Operária (PCO) e ao Movimento Negação da Negação. Ao mesmo tempo, o envolvimento de integrantes seus com a política partidária faz com que caiam em descrédito com os que acreditam que a prioridade do diretório deve ser simplesmente atender às demandas dos alunos no dia a dia.
Àquela altura, parte dos presentes vaiava um colega que defendia a aprovação de um indicativo de greve futura. A outra proposta, de greve imediata, obteve mais votos, mas a defesa que Thiago fez do colega foi o momento mais aplaudido da noite. Aos 22 anos, prestes a concluir o curso de ciências sociais, Thiago jamais havia presidido uma assembleia com tanta gente, a maior dos últimos anos na USP, ocorrida noite de terça-feira. "Precisávamos dar uma resposta à reitoria e ao governo estadual, que foi autoritário na prisão dos colegas, e à própria sociedade que, ao que parece, rechaça o movimento estudantil hoje. Mas nunca tinha presidido algo com esse tamanho e essa responsabilidade", conta.
Thiago vê com preocupação a polarização de discursos que se desenhou, na opinião pública e na mídia, em relação aos fatos ocorridos na USP nos últimos dias. "Eu vejo como um debate falso que se criou essa polarização entre ter Polícia Militar na USP ou não. E que se desdobrou em outro, que é ter movimento estudantil ou não. Existe uma corrente de opinião que apoia as ações da reitoria e acha que a universidade serve só para se conseguir um diploma. Nós não acreditamos nisso", avalia. O embate mais intenso entre o movimento estudantil e a reitoria remete à eleição do atual reitor, João Grandino Rodas.
Rodas tornou-se reitor da universidade em novembro de 2009. Desde o início sua gestão foi contestada: segundo colocado de uma lista tríplice votada pelo conselho universitário, Rodas foi o escolhido pelo então governador José Serra (PSDB) - a última vez em que o comandante do Estado não seguiu a preferência do conselho foi em 1981, com o governador biônico Paulo Maluf (hoje no PP). Antigo diretor da Faculdade de Direito da USP, Rodas já não contava com a simpatia do movimento estudantil por práticas similares às assumidas como reitor. Em 2006, permitiu a entrada da tropa de choque da Polícia Militar na Faculdade de Direito para a retirada de manifestantes da União Nacional dos Estudantes (UNE), e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que haviam ocupado o prédio como parte das manifestações da Jornada em Defesa da Educação. Já reitor, recebeu da congregação da Faculdade da Direito da USP, por unanimidade, o título de "persona non grata" na escola.
A entrada da PM no campus da USP ocorreu após a morte do estudante Felipe Ramos de Paiva, em um assalto no estacionamento da Faculdade de Economia e Administração (FEA), em maio, a partir de um convênio firmado entre a USP e a PM. "Acreditamos que a melhor solução é a contratação de uma guarda universitária via concurso público, com treinamento específico para lidar com a comunidade. É preciso melhorar a iluminação no campus e aumentar o número de ônibus circulares, porque muita gente fica até tarde esperando transporte", alega Thiago.
Hoje, a guarda universitária é terceirizada. "O problema é que a presença da PM no campus não foi discutida com a comunidade universitária. Vai além do episódio dos alunos com maconha ou as ocupações", continua. Em 27 de outubro, três estudantes de geografia foram detidos por posse de maconha na USP. Deu-se na sequência um protesto de 300 alunos contrários à ida dos suspeitos para a delegacia, o que depois ocorreu por iniciativa dos próprios. Foi feita uma assembleia para discutir a questão e votou-se pela ocupação da FFLCH.
"Nos colocamos contrários à ocupação, mas como fomos voto vencido, consideramos a ação legítima. Há semanas os policiais entravam nas faculdades, circulavam nos blocos didáticos. Era uma afronta e as pessoas queriam responder a isso", avalia. Na assembleia seguinte, o DCE apoiou a desocupação do prédio, que foi aprovada pelos presentes. Com o horário avançado, muitos estudantes foram embora e só depois surgiu a proposta de se ocupar a reitoria. A mesa, composta por integrantes do DCE e do Centro Acadêmico da Letras, considerou que já não havia quórum para votação e declarou o fim da assembleia. O grupo defensor da ocupação da reitoria se manteve no local, fez uma votação entre seus pares e executou seu intento.
"Fomos contrários à ocupação porque ela não colaborava na discussão, era inadequada e feita por um grupo minoritário. Agora, nada disso teria ocorrido se o reitor dialogasse com o conjunto da comunidade. A responsabilidade de toda essa escalada de conflitos na USP tem nome e sobrenome: João Grandino Rodas", acusa Thiago. A prisão dos estudantes foi condenada pelo DCE e, na já citada assembleia de quase 3 mil alunos, decidiu-se pela greve, sem novas ocupações.
A declaração do governador Geraldo Alckmin (PSDB), de que os manifestantes necessitam de "aula de democracia", desagradou em especial o movimento estudantil. "Se uma pessoa como Alckmin pode hoje governar o Estado, deve muito disso a pessoas que estavam aqui na USP, no movimento estudantil, e que lutaram pela democracia", devolve o diretor do DCE. Nos planos divulgados por Rodas para a USP estão a reforma do antigo prédio da Reitoria, a construção de um centro de convenções, de um centro de difusão internacional e um parque de museus, com custo total estimado em R$ 240 milhões para os próximos quatro anos. "Tudo é feito sem consulta a estudantes e funcionários. Para quê um centro de convenções? A USP precisa mais disso ou de melhoras na iluminação? O governador deveria exigir uma aula de democracia para os dirigentes da universidade", propõe. (VL)