Título: O campeonato ganho na véspera
Autor: César Felício
Fonte: Valor Econômico, 26/05/2006, Política, p. A9
Grande adepto das metáforas futebolísticas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi cauteloso ao responder exclusivamente sobre a Copa do Mundo, na última pergunta de sua entrevista ao "Le Monde", publicada anteontem. "Há momentos na história em que os favoritos não ganham", ponderou o presidente, concluindo: "É melhor esperar o começo da Copa", ou, no original, "le début du championnat". É precisamente o caso de se perguntar se a metáfora oculta se aplica ou não diante do quadro das pesquisas de opinião do Datafolha e Sensus desta semana, em que o presidente, como disse em entrevista o senador tucano Arthur Virgílio, encontra-se "estacionado em 40%" das intenções de voto, ganhando no primeiro turno mesmo nos cenários que incluem a já descartada candidatura do ex-governador fluminense Anthony Garotinho (PMDB).
Os cenários com e sem os candidatos pemedebistas já dão a dimensão de como Lula capitaliza mais que Alckmin o voto dos descartados. No Rio de Janeiro, com Garotinho, segundo o Datafolha, o petista tem 36% da preferência, seguido pelo pemedebista com 13%, Alckmin com 11% e Heloísa Helena com 10%. Retira-se Garotinho e o quadro fluminense mostra Lula com 41%, Alckmin com dois pontos percentuais a mais e a senadora do P-SOL com 11%. Na repartição do espólio de Itamar Franco em Minas Gerais, Lula herda quatro pontos percentuais, Alckmin três e Heloísa Helena, um. O petista ficou com 49% entre os mineiros, ante 17% de Alckmin e 7% da senadora. Em um Estado governado por um tucano candidato a reeleição, é um feito extraordinário.
Mesmo em São Paulo, onde o presidente perde, o progresso das intenções de voto de Lula parece gritante. Em uma pesquisa do Datafolha de janeiro, Alckmin chegou a obter 53% das intenções de voto. Tem na última sondagem 42% do voto paulista. Lula, que estava com 19% entre os paulistas na virada do ano, aparece agora com 33%.
Espaço para PSDB reagir existe, mas diminuiu Tudo isso com um presidente com as feridas das acusações de corrupção cauterizadas. "A crise política, já há muitos meses, deslocou-se do Executivo para o Legislativo", disse o cientista político Rubens Figueiredo, da empresa de consultoria Cepac. Desde dezembro, nada menos que onze deputados federais foram absolvidos em plenário das denúncias de envolvimento com o mensalão. Não por coincidência, começou aí a recuperação da imagem do presidente nas pesquisas.
A euforia petista só perde um pouco a sua razão de ser quando se leva em conta as circunstâncias muito peculiares em que as duas pesquisas foram feitas. Dificilmente haveria uma ocasião tão propícia para mostrar crescimento de Lula e queda de Alckmin do que logo depois de uma mega-crise da segurança pública no reduto do tucano e de uma ampla ofensiva publicitária do governo federal.
A elite "branca e má" mencionada pelo governador paulista Cláudio Lembo ficou muito, muito decepcionada com Alckmin. É verdade que as pesquisas mostram uma repartição da responsabilidade do problema da segurança pública entre os três níveis do governo. Mas quem disse que fez uma revolução gerencial no Estado foi Alckmin. "Há uma nota dissonante entre o choque de gestão que o candidato apregoa e o que se viu em São Paulo. Isto fez com que houvesse transferência de voto dele para Lula justo nas camadas em que o tucano era mais conhecido", comentou o coordenador da pesquisa da Sensus, Ricardo Guedes. Na parcela do país em que os tucanos estavam mais débeis, como o Nordeste e a faixa de eleitores menos instruídos, Alckmin oscilou de maneira positiva.
O cruzamento da pesquisa da Sensus dá a dimensão deste fenômeno: Alckmin perdeu três pontos percentuais e meio no Sudeste. No Nordeste, cresceu um pouco, de 8,7% para 10,1%. O tucano desabou entre os eleitores com instrução superior, recuando de 34,6% para 26%. Na faixa com fundamental incompleto subiu, de 19,8% para 20,5%. "Isto é nitidamente o impacto da crise do PCC", disse Guedes. Os tucanos terão quatro meses e uma semana - tempo nada desprezível - para estancar o problema até a eleição.
A assimetria do patrimônio eleitoral de Lula - forte no Nordeste mas ainda fraco no eixo Sul-Sudeste, robusto nas classes mais pobres e menos instruídas e bem inferior nas faixas mais ricas e com instrução mais elevada - dá ao quadro eleitoral um componente de volatilidade. "Este formato da candidatura do presidente é muito diferente da que Fernando Henrique Cardoso tinha em 1998, ainda que os índices de Lula hoje sejam melhores", afirmou o consultor político José Luciano Dias, da Góes & Associados. Em resumo, há um espaço, cada vez menor, por onde Geraldo Alckmin pode surpreender e retirar o favoritismo do presidente. Mas antes o tucano terá que reconquistar eleitores que perdeu.