Título: Exportador aproveita a puxada e vende dólar
Autor: Cristiane Perini Lucchesi
Fonte: Valor Econômico, 26/05/2006, Finanças, p. C1

Os exportadores aproveitaram a puxada na taxa de câmbio para vender dólar no mercado à vista e futuro. Ajudaram a derrubar o valor da moeda americana para R$ 2,2940 ontem, uma queda de 4,41%. O movimento de venda das empresas chegou a crescer até 40% desde segunda-feira em grandes bancos. No Banco do Brasil, o líder no financiamento de curto prazo à exportação, o número de operações de adiantamento de contratos de câmbio chegou a 231 na quarta-feira, quando o dólar subiu 4,7% e foi a R$ 2,40. É um total 78% acima da média diária normal.

Ontem, ainda era possível vender dólar futuro para vencimento em um ano a R$ 2,52. No auge da alta no câmbio, o exportador conseguiu travar sua taxa a R$ 2,60 para um ano. Nada mal, ainda mais na comparação com os R$ 2,15 do dia 10 de maio.

Segundo diretor de banco nacional que preferiu não se identificar, ainda há exportadores com a mão no gatilho, esperando para vender se a volatilidade no câmbio acalmar um pouco mais. Ele lembrou que na terça-feira última, quando o mercado chegou a ensaiar uma recuperação, muitos venderam dólar e perderam dinheiro, pois a moeda americana se valorizou quase 5% logo depois. Por isso, a cautela prevalece.

Diferentemente do que aconteceu em crises cambiais anteriores, a maior parte das empresas com passivo em dólar não saiu desesperada para se proteger e comprar dólar futuro a qualquer preço. Houve pequeno crescimento da demanda por hedge de passivo, mas só por parte de companhias com limite menor de exposição ao risco cambial ou com vencimentos no curto prazo. Em meio à turbulência, a compra de dólar à termo continuou cara.

"Houve uma elevação saudável da demanda por hedge, tanto das companhias exportadoras, que entram vendendo, quando das empresas com dívida em dólar, que entraram comprando", diz Hiroshi Ogawa, responsável pela mesa de derivativos para clientes do BNP Paribas. "As tesourarias das empresas amadureceram e agora operam nas duas pontas", diz. As perspectivas de fluxo cambial positivo ajudam a evitar que o Banco Central seja o único vendedor de dólar em meio à crise, como aconteceu na turbulência eleitoral de 2002.

Capitalizadas, as grandes exportadoras optaram pelo mercado de derivativos e venderam dólar futuro ou à termo. Já as exportadoras menores, com mais necessidade de caixa, travaram seu dólar futuro em um nível mais elevado vendendo recebíveis em moeda estrangeira ou antecipando contratos de câmbio.

No BB, foram justamente as exportadoras menores as que mais fecharam Adiantamentos de Contrato de Câmbio (ACCs), crédito pré-embarque, e Adiantamentos sobre Cambial Entregue (ACEs), pós-embarque, na quarta-feira, nota Nilo José Panazzolo, diretor de comércio exterior. A média de valor das 231 operações realizadas foi de pouco mais do que US$ 300 mil. Para se ter um parâmetro de comparação, no dia 15, outro dia de movimento forte em ACCs e ACEs no BB, a média de valor das 220 operações foi de quase US$ 900 mil. Panazzolo lembra que as grandes empresas já vinham adiantando seus contratos de câmbio para tentar compensar as perdas com o dólar com operações financeiras em reais. Segundo ele, o câmbio contratado já supera em US$ 13 bilhões os embarques físicos.

Entre as empresas que ampliaram o hedge de seus passivos, muitas montaram estruturas com opções (direito de compra ou venda de uma ativo no futuro), de forma a fugir do custo elevado da compra de dólar futuro. O custo do hedge pode chegar a zero se forem utilizadas estruturas como o "collar ", por meio da qual a empresa vende uma opção de venda a R$ 2,10, por exemplo, e compra uma opção de compra a R$ 2,40. Se os preços das opções forem iguais, não há custo para a empresa. Abaixo de R$ 2,10, as perdas vão para a empresa. Acima de R$ 2,40, a empresa está protegida. Entre R$ 2,10 e R$ 2,40, as perdas se resumem ao preço pago, que pode ser zero.

Segundo Ogawa, o fato de as empresas terem alongado o vencimento de seus passivos em dólar ajuda a tirar a pressão no câmbio. "Se a sua dívida cambial não vence no próximo mês, você se preocupa menos com a volatilidade no curto prazo e pode estudar com mais calma e racionalidade o melhor momento para fazer hedge", comenta. Além disso, há muitas empresas com dívida em dólar com hedge natural nas exportações ou nas receitas em moedas estrangeiras. A pressão por hedge de passivo está também menor, pois, de uma forma geral, as empresas brasileiras têm hoje menos dívida em dólar. A dívida externa do setor privado e do setor público financeiro brasileiro caiu de US$ 100 bilhões em dezembro de 98 para US$ 68,5 bilhões em março último.