Título: Tarso tenta acordo para a segurança
Autor: Raymundo Costa
Fonte: Valor Econômico, 23/05/2006, Política, p. A6

O ministro Tarso Genro (Relações Institucionais) acredita que a crise da segurança em São Paulo é uma oportunidade para um entendimento institucional entre governo e oposição, com vistas a uma campanha eleitoral "civilizada", a curto prazo, e mais adiante um pacto que assegure tranqüilidade para o desenvolvimento do país nos próximos anos. Genro diz que o terror paulista não é um problema do PT, do PSDB ou do PFL, mas de todos os setores democráticos. O risco seria a quebra da institucionalidade e do estado de direito.

Dirigente de um partido dividido, às voltas com uma crise ética, Tarso Genro se surpreendeu com o comportamento do PSDB e do PFL na crise paulista. "A gente não entende bem quais são as divergências internas do PSDB, internas do PFL e as divergências juntas dos dois partidos", diz. "Eu particularmente fiquei um pouco surpreso com o grau das divergências sem que a gente saiba qual é a natureza".

Para o ministro "o que parece unificar o discurso tucano-pefelista, do PSDB e do PFL, é o discurso do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso". Ou seja, a visão com que o ex-presidente abordou a questão de Estado, a questão das privatizações, "a visão de tolerância repressiva com os movimentos sociais - um negócio muito próprio da elite tucana -, a visão de alinhamento automático com os Estados Unidos, a postura de costas para a América Latina e de frente para a Europa e os EUA". Logo, Tarso deduz que o que ocorreu em São Paulo foi a falta de um "discurso unificador" para PSDB e PFL.

Discurso unificador "que o Alckmin ainda não conseguiu constituir, pode ser que constitua no futuro, e que o Serra pretendia constituir pela esquerda (faz o sinal de aspas), numa tentativa de coesão de um campo, digamos assim, mais progressista, aparentemente progressista. O Alckmin representa mais essa visão tradicional de FHC, mas sem capacidade de sistematizar e sem organizar de maneira adequada". Sem um discurso unificado, os tucanos divergiram em público. "O discurso do Lembo é um discurso institucional, de composição institucional, numa visão de estado de direito, de colaboração entre os poderes, respeito recíproco, de quem está no governo", avalia o ministro. Já Alckmin fez o discurso de quem está fora do governo, "mais duro contra o presidente, mais forte, mais agressivo, o que é normal num candidato, mas que foi totalmente insuficiente para coesionar o PSDB e o PFL".

Ministro vê na crise risco para instituições E o que é que o governo vai fazer? "Primeiro, demos a resposta que tínhamos que dar, não aceitando a transferência de responsabilidade; segundo, vamos aprofundar a relação federativa com São Paulo, independentemente do discurso que faça o governador. E ele já manifestou interesse na colaboração institucional".

Terceiro e talvez mais importante: visto em perspectiva, o caso de São Paulo demonstra que, segundo Tarso, se não forem tomadas tomadas providências de "frente única", pode se repetir em outros estados. Argumenta que o estado de direito passou por "uma instabilidade", e isso pode gerar na população uma "visão de que a democracia não pode resolver problemas. Não é mais um problema do PT, do PFL do PSDB. É do centro, é da esquerda e da direita democráticos. É de todos os setores democráticos do país, independentemente da sua ideologia".

Para o ministro das Relações Institucionais, o ambiente eleitoral é o melhor momento para que esse debate "adquira um nível qualitativamente superior". Por mais dura que seja a disputa. "É uma tarefa importante de todos os que não apostam na queda das instituições, na queda do estado de direito, em última análise na queda do projeto democrático do país. Até porque há também uma crise no parlamento".

Essa é a visão que moverá os passos de Tarso nos próximos dias. Com o clima distendido depois que a entidade desistiu de pedir o impeachment do presidente, ontem o ministro esteve na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). "Não interessa se a OAB vai fazer um discurso oposicionista ou não ao Lula, pode fazer o discurso que quiser. Vamos fazer compromissos em cima dos projetos". Hoje, o ministro conversa com Jefferson Peres (PDT-AM) para ouvir a proposta do senador sobre um projeto de "Concertación" nacional. Justamente por causa do ocorrido em São Paulo, o diálogo de Tarso com a oposição travou na semana passada, mas, pelo que sinaliza o ministro, pode ser retomado a qualquer hora.