Título: Máquina feita na China chega ao país 30% mais barata
Autor: Raquel Landim
Fonte: Valor Econômico, 17/05/2006, Especial, p. A12

Xiang Linfa chegou ao Brasil em meados de 2003, enviado pela direção da Haitian, uma das maiores fabricantes de injetoras plásticas da China. Sem falar uma palavra de português, construiu uma sede para a empresa em São Roque, cidade próxima à capital paulista, onde funciona a administração e o depósito para as máquinas chinesas importadas. Do segundo semestre de 2004, quando as operações começaram, até agora, a Haitian vendeu cerca de 100 injetoras plásticas no Brasil. "Estamos apenas começando", diz Xiang em inglês com sotaque carregado. A Haitian possui 10 fábricas na China e duas no exterior, na Itália e na Turquia. A empresa também conta com escritórios de vendas nos Estados Unidos, Canadá, México, além do Brasil. A subsidiária brasileira, denominada Haitian América do Sul, administra os negócios na região. Com faturamento anual de US$ 350 milhões, US$ 250 milhões na China e US$ 100 milhões no exterior, a Haitian produz 12 mil injetoras por ano. É uma concorrente que mete medo na indústria nacional. O mercado brasileiro está estimado em 1,5 mil máquinas/ ano.

Os planos da Haitian para o Brasil são ambiciosos. Ao visitar a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) há alguns meses, Xiang surpreendeu os pesos pesados da indústria. O jovem executivo informou que pretende construir uma fábrica no Brasil e que gostaria de se filiar à entidade. "Precisamos nos adaptar ao mercado e deixar de ser uma empresa estrangeira", diz Xiang. Por mais que os empresários nacionais se sintam incomodados com sua presença na Abimaq, não poderão barrar sua entrada.

"Eles não precisam ter medo de nós", diz Xiang, enquanto sorri e ajeita a gravata com pequenos logotipos da empresa. "Se a Haitian conquistar 10% do mercado brasileiro, está ótimo. É impossível tomar tudo", reforça. Ele diz que o foco da empresa são os clientes de médio porte e que espera cooperar com seus concorrentes no futuro. "A Sandretto é uma empresa italiana. Por que a indústria brasileira deveria se precaver contra a China?", questiona Xiang, referindo-se a uma importante fabricante de injetoras plásticas instalada no país.

A indústria brasileira, contudo, está alarmada. Carlos Buch Pastoriza, vice-presidente da Abimaq, conta que vem ocorrendo uma "invasão" de injetoras chinesas. Segundo ele, as máquinas da China, que chegam por um terço do preço das brasileiras, conquistaram 30% do mercado nacional em dois anos. Pastoriza diz que os chineses contrataram vendedores de empresas brasileiras, para se familiarizar com o mercado, e estão aproveitando as vantagens de seu país como câmbio barato, salários baixos e escala.

A Abimaq solicitou ao governo que adote salvaguardas, que podem ser sobretaxas ou cotas de importação, contra as injetoras de plástico chinesas. Essa é uma máquina simples, utilizada em diversos setores da indústria, como alimentos, automotivo ou eletroeletrônico. Ao contrário de outros setores em análise pelo governo, um aumento de preços desse produto, por conta das salvaguardas, pode ter impacto no nível de investimento do país.

A petição da Abimaq, entregue há alguns meses ao Departamento de Defesa Comercial (Decom), ficou de fora da primeira rodada de negociação com os chineses, que acontece essa semana em Brasília. Pastoriza explica que as fabricantes de injetoras têm dificuldades para comprovar o dano provocado pelas importações. Apesar da perda de market-share, o faturamento das empresas aumentou, já que o mercado de injetoras cresceu 50% em 2004 e 2005. "Foi uma infeliz coincidência. Quando o mercado desaquecer, teremos um problema", diz Pastoriza.

Romi, Sandretto, Hymaco e Pavan & Zanetti estão entre as grandes fabricantes de injetoras plásticas instaladas no país. Procurada pelo Valor, a Romi, que é de capital nacional, não concedeu entrevista. A Sandretto é a única multinacional que produz esse tipo de máquina no país e detém entre 25% e 30% do mercado. Guido Pelizzari, presidente da Sandretto no Brasil, diz que a companhia está sofrendo com a concorrência das máquinas vindas da China e de Taiwan.

Ele garante que, enquanto a injetora chinesa custa US$ 2,5 por quilo, a européia está em US$ 10 por quilo e a brasileira, em US$ 7 por quilo. "A China atua com um preço que não tem lógica. É uma concorrência desleal", sustenta. Apesar do mercado aquecido, Pelizzari conta que demitiu 10% dos funcionários em 2005. Hoje a empresa emprega 100 pessoas e gera 120 vagas indiretas. Outra estratégia adotada pela companhia, diz o empresário, foi elevar a importação de componentes para compensar a valorização do real. Em 2004, a Sandretto faturou R$ 60 milhões.

As injetoras de plástico, que geram um faturamento de R$ 700 milhões por ano, são apenas uma pequena parcela do mercado de máquinas e equipamentos no país, que chega a R$ 40 bilhões. Pastoriza diz que as máquinas chinesas não estão incomodando apenas os fabricantes desse produto e calcula que a concorrência asiática já atinja 20% do setor.

Segundo ele, a Abimaq também estuda outros processos de salvaguarda e antidumping para produtos como fornos, descaroçadores de algodão, motoredutores e centros de usinagem. Outro instrumento em análise pela entidade é a valoração aduaneira, na qual a Receita Federal investiga o produto que chega ao país abaixo de um preço de referência.

Para contrabalançar o poder político dos fabricantes nacionais, os importadores também estão se organizando e fundaram a Associação Brasileira dos Importadores de Máquinas e Equipamentos Industriais (Abimei). Thomas Lee, presidente da entidade, defende que é contra a proteção exagerada, quando a concorrência é leal. Ele argumenta que os fabricantes nacionais possuem uma vantagem importante, que é o Finame.

O programa do BNDES concede juros mais baratos para a compra de máquinas e equipamentos, mas exige 60% de conteúdo nacional. "Se mesmo assim a indústria não consegue competir, é melhor não produzir máquinas no Brasil. Cada país tem suas vantagens e desvantagens", argumenta.

Lee também é presidente do grupo Mega, que chegou ao Brasil em 1991. A Meggaton é a maior importadora do país de máquinas de usinagem e, nos últimos três anos, começou também a trazer injetoras plásticas da China e de Taiwan. A Meggaton é contra as salvaguardas e argumenta que, se o governo impuser uma proteção, as empresas brasileira serão as maiores prejudicadas. "Se os fabricantes de brinquedos, por exemplo, comprarem uma máquina mais cara, como vão competir com os chineses?", questiona Lee.

Em uma demonstração de como o assunto é complexo, existem importadores que defendem as salvaguardas. Alcino Bastos, gerente geral da Okuma, está preocupado com as importações chinesas. Ele teme que esses produtos desloquem máquinas de outras origens. Com sede em Nagóia, a Okuma importa máquinas ferramentas, centros de usinagens e retíficas do Japão "Um novo player não pode entrar no mercado e causar um desequilíbrio geral", argumenta.

Também pode parecer um contra-senso, mas os importadores estão preocupados com a valorização do real. Lee diz que se, ao invés de pleitear "proteção artificial", os fabricantes nacionais pedissem "equivalência cambial", teria o apoio das empresas importadoras.

Ele reclama de uma valorização excessiva da moeda brasileira. Segundo o empresário, o atual patamar do dólar não incentiva a indústria a investir. "Não adianta ter máquina barata, se não tem comprador. Se a economia crescer, haverá mercado para todos", diz Lee. Bastos, da Okuma, também concorda. "O câmbio trouxe conseqüências graves. Minha máquina está mais barata, mas não tenho mercado. As empresas estão relutantes em investir", diz. Ele estima que o dólar ideal estaria entre R$ 2,70 e R$ 2,90.