Título: Real forte é fruto da alta de preços de exportação, diz indicado ao BC
Autor: Alex Ribeiro
Fonte: Valor Econômico, 17/05/2006, Finanças, p. C1

Em sabatina na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, o economista Mário Mesquita, indicado para a diretoria de Estudos Especiais do Banco Central, defendeu a tese de que o real se valorizou porque migrou para um novo patamar, criado pela alta dos preços de produtos exportados pelo Brasil e pela queda no risco país.

Foi uma sessão esvaziada, com poucos senadores e apenas dois inquiridores, mas suficiente para que Mesquita e o economista Paulo Viera da Cunha, indicado para a diretoria de assuntos internacionais, mostrassem afinamento com a política monetária gradualista do BC. Mesquita, que era o economista-chefe para a América Latina do ABN AMRO, foi além, isentando o BC de culpa pela valorização do real e rejeitando intervenções para segurar a cotação do dólar.

Ele não negou a influência dos juros altos na valorização da moeda, mas argumentou que estudos econométricos demonstram que a queda do risco-país é um fator mais importante. "A apreciação do câmbio se acentuou recentemente mesmo após ter reduzido o diferencial de juros interno e externo", sustentou.

Mesquita disse que em 2002 o câmbio ficou "muito depreciado, bem acima da média histórica" - e que seria fatal uma correção no momento seguinte, pela apreciação nominal ou pela inflação, que corrói a taxa real. Ao final, concluiu, ambos fatores valorizaram o real, mas o papel a inflação foi menor, o que ele acha positivo. "Inflação estável garante um horizonte previsível para os investimentos."

Mesquita vinculou a recente apreciação cambial à melhora dos termos de troca do Brasil - isto é, aumento de preços de bens exportados em relação a importados -, que leva o dólar a um novo patamar. Paralelamente, disse, também houve uma tendência de diversificação das aplicações de investidores estrangeiros, diminuindo posições em dólar e ampliando em moedas de países emergentes.

Estudo recente do economista, quando ainda estava à frente do ABN, apontava que o dólar, então em R$ 2,12, estava cerca de 20% abaixo da média história, de R$ 2,55. Mesquita rejeitou a hipótese de o BC intervir no câmbio com o intuito de fixar um dólar favorável aos exportadores. "A experiência da taxa de câmbio fixo na América Latina não é muito feliz", sustentou. "Taxas de câmbio múltiplas também não foram muito exitosas no Brasil." Para ele, seria inconsistente adotar tal política com regime de metas de inflação. "Se a tarefa do BC for limitar a flutuação do câmbio, terá de relegar a segundo plano o controle da inflação."

Mesquita considera provável que o real volte a se depreciar, dentro do regime de livre flutuação. "Não acho que a tendência será permanente, o câmbio tende a voltar a uma média histórica", disse. Segundo ele, será um processo gradual, na medida em que a inflação ficar sob controle e a retomada do crescimento econômico repercutir sobre o volume de importações.

Ex-professor da Universidade de Columbia, em Nova York, Vieira da Cunha defendeu cautela e prudência na politica monetária. "A vigilância deve ser contínua, de maneira a resguardar os ganhos na redução da inflação", afirmou. "Em política monetária, como em tantas coisas, a evidência mostra que a prevenção é o melhor remédio."

É possível identificar certa afinidade com as posições tomadas pelo BC. Ao cogitar maior parcimônia no corte de juros, a ata do Copom de abril diz que o comitê "avalia que a atuação cautelosa da política monetária tem sido fundamental para aumentar a probabilidade de convergência da inflação para a trajetória de metas".

Mesquita disse que "o papel do BC, na atual conjuntura, é o de consolidar os expressivos ganhos dos últimos anos, mantendo as expectativas de inflação ancoradas nas metas". Para ele, "tentativas de utilizar a política monetária para promover surtos temporários de crescimento tem geralmente sido infrutíferas." Vieira da Cunha respondeu a apenas uma pergunta, do senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que queria conhecer sua opinião sobre um programa de renda mínima nos Estados Unidos - assunto não central nas atividades de um diretor de assuntos internacionais do BC. O economista disse apoiar programas dessa natureza, ressalvados aspectos ligados ao equilíbrio fiscal e à oferta de trabalho pelos beneficiados.

A indicação dos dois economistas foi aprovada pelo plenário da casa, com um placar de 19 a 1, no caso de Mesquita; e de 18 a 1, com uma abstenção, no caso de Viera da Cunha. Também foi aprovada por unanimidade um pedido de urgência para as indicações serem apreciadas pelo plenário do Senado, mas o assunto não caminha adiante enquanto a obrigação de análise de algumas medidas provisórias estiver trancando a pauta da casa. Com isso, são pequenas as chances de os novos membros participarem da próxima reunião do Copom, daqui a duas semanas.