Título: Para tucanos e pefelistas, Lembo fez um desabafo
Autor: Cristiane Agostine
Fonte: Valor Econômico, 19/05/2006, Política, p. A7
As críticas feitas pelo governador Cláudio Lembo ao seu antecessor, Geraldo Alckmin, pré-candidato do PSDB à Presidência da República, foram interpretadas por pefelistas e tucanos como "desabafo" de uma pessoa que está sob forte pressão com a onda de criminalidade que assolou a capital.
"A responsabilidade do governador é muito grande e o clima é de nervosismo, tensão. As declarações dele têm que ser analisadas dentro desse clima", afirmou o presidente do PFL, senador Jorge Bornhausen (SC). Ele foi solidário com Lembo, mas negou mal-estar do PFL em relação à atuação de Alckmin ou do PSDB no episódio da onda de ataques ocorrida em São Paulo. Na segunda-feira, Bornhausen irá a São Paulo se encontrar com o governador.
Em entrevista à "Folha de S. Paulo", Lembo responsabilizou a "minoria branca" e a "burguesia" pela miséria social brasileira, disse que nesse episódio não recebeu nenhuma ligação do ex-prefeito de São Paulo, José Serra, e apenas dois de Alckmin, seu antecessor. E foi irônico: "Eu acho normal. Os pulsos são tão caros..."
As declarações foram analisadas com cautela por parlamentares dos dois partidos, que estão aliados nacionalmente na sucessão presidencial. O PFL escolheu ontem o vice na chapa de Alckmin. O vitorioso, senador José Jorge (PE), que recebeu de Lembo manifestação pública de apoio, também irá a São Paulo com Bornhausen prestar solidariedade ao governador.
O líder do PFL no Senado, José Agripino (RN), lamentou que o governador de São Paulo não tenha tido interlocução com pessoas ou entidades que pudessem ajudá-lo nessa crise. Ele defendeu uma "relação mais robusta" entre PFL e PSDB. "Eles têm que entender que são parceiros e não meros aliados", disse.
O líder do PSDB no senado, Arthur Virgílio (AM), afirmou que as declarações mostram uma pessoa "visivelmente estressada".
"Foi a expressão de um governante compreensivelmente comovido com o drama que seus governados viveram. Foi sincero, incisivo e comovido", disse. Em defesa de Alckmin, Virgílio afirmou que ele não se envolveu mais para "não parecer que quer mandar no governo".
O senador Álvaro Dias (PSDB-PR), líder da minoria, foi o mais crítico em relação ao governador. "Suscetibilidades não podem ficar à flor da pele num momento como este", disse. Para o pefelista Romeu Tuma (SP), a entrevista de Lembo "foi um desabafo e atinge Alckmin".