Título: Oposição busca projeto para segurança
Autor: Cristiane Agostine
Fonte: Valor Econômico, 19/05/2006, Política, p. A7

Nos planos estadual e federal foi a oposição que saiu à frente na busca de uma proposta de segurança para a campanha eleitoral. Em meio à maior crise de segurança pública já vivida pelo Estado de São Paulo, que já contabiliza 152 mortos, os candidatos do PSDB à Presidência da República, Geraldo Alckmin, e do PT ao governo de São Paulo, Aloizio Mercadante, saíram à frente em suas proposições. A campanha petista em São Paulo apresenta documentos prontos para discussão sobre o tema com argumentos de diversos setores do partido. Já o projeto dos tucanos, defendido por José Serra, ainda está em fase embrionária e sequer foi estruturado.

A postura dos dois postulantes também é divergente. Serra está em Nova York há uma semana e só deve voltar amanhã ou domingo. Como oposição, Mercadante aproveitou para expor suas críticas à gestão PSDB-PFL, há doze anos no Estado.

A primeira reunião para estruturar a campanha de Serra foi feita na quinta-feira da semana passada, segundo interlocutores presentes no encontro. Serra distribuiu funções, determinou tarefas e no dia seguinte desembarcou nos Estados Unidos. Em sua agenda, segundo a assessoria, estariam a participação em palestras com empresários, promovidas pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos e descanso. Naquela mesma noite começou a primeira das 73 rebeliões registradas.

Sem declarações à imprensa, Serra passou praticamente desapercebido durante toda semana, apesar de ser candidato ao governo do Estado. O governador Cláudio Lembo disse, em entrevista ao jornal "Folha de S. Paulo", que não havia recebido nenhuma ligação do ex-prefeito de São Paulo.

Informações sobre as ações violentas do Primeiro Comando da Capital (PCC) no Estado foram repassadas todos os dias a Serra, por seus correligionários. Um dos "relatores" dos boletins enviados, o presidente da Comissão Municipal de Direitos Humanos, José Gregori, coleta informações divulgadas pela polícia para estruturar a política de combate ao crime organizado, mas reconheceu que "o programa está em fase embrionária". "A campanha não começou", justificou.

Ainda sem ser reconhecido oficialmente como responsável pela elaboração do programa de segurança de Serra, o ex-ministro Gregori é um dos consultores na área. "Queremos elaborar o plano em cima do que aconteceu. Foi uma ação sem precedentes e precisamos de dados. Programa não é enfeite, para cumprir determinação da Justiça Eleitoral." Gregori foi o único tucano a falar do plano de governo, apesar de o Valor ter procurado, insistentemente, o coordenador geral da campanha, o coordenador programático, o presidente estadual do partido, o secretário geral do PSDB paulista e o secretário de governo municipal.

No PT, um documento base, com 24 páginas, elaborado pelo deputado Vanderlei Siraque, servirá como referência nas discussões do partido e traz inúmeras críticas às falhas no combate ao crime organizado. "A ausência do Estado foi ocupada pelas organizações criminosas, que transformam os presos em seus sócios e as suas famílias em reféns", relata o documento petista. "A entrada de celulares confirma corrupção nos presídios, o descaso e a incompetência política para o setor".

Mercadante soube aproveitar o momento caótico vivido pelo governo paulista para apresentar suas propostas. Na quarta-feira chamou toda bancada do partido na Assembléia e convocou entrevista coletiva para mostrar que o partido levará a bandeira de segurança como prioridade máxima. Entre as propostas estão a implementação do serviço de inteligência em presídios para combater o crime organizado, a radicalização do programa de descentralização de penitenciárias, já iniciado no governo Alckmin, e a aplicação das penas alternativas. Os bloqueadores de celular e detectores de metal estão previstos para todos os presídios. Serviço de filmagem e de escuta nos presídios também estão entre as propostas, além de policiais à paisana para investigaras ações dos detentos dentro do sistema de reclusão.

Os policiais, as principais vítimas dos ataques do PCC, têm a promessa de aumento salarial e melhores condições de trabalho em uma eventual gestão petista. A ajuda do governo federal deverá ser bem-vinda, defendeu Mercadante. Para a Fundação do Bem Estar do Menor (Febem), que apresentou recorde no número de rebeliões no ano passado, uma solução: extigüi-la. "Estamos muito preocupados. O crime organizado está se infiltrando na juventude", discursou Mercadante. Como solução, estaria a construção de unidades para até 40 jovens e a implementação de projetos para recuperação e profissionalização dos jovens. A liberdade assistida dos menores infratores seria feita em parceria com a igreja, prefeituras e famílias, defendeu o petista.