Título: Furlan pede uma agenda de mudanças
Autor: Raquel Balarin e Catherine Vieira
Fonte: Valor Econômico, 16/05/2006, Brasil, p. A4
Alguém que critica a alta carga tributária, a baixa qualidade de ensino, o nível de presença político-partidária nas áreas técnicas do governo, o excesso de burocracia e a anacrônica legislação cambial brasileira poderia ser classificado como um político da oposição. Mas os comentários partiram todos de um ministro de Estado. Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento, elencou ontem na sessão de abertura do 18 Fórum Nacional, os vários gargalos à competitividade brasileira e estabeleceu uma agenda que ele chamou de "suprapartidária" de mudanças estruturais no país.
Para o ministro, o Brasil tem o mau costume de tributar o investimento e a produção. "O investimento sustenta o país, gera emprego e crescimento no longo prazo. Precisa ser estimulado", completou Furlan, estabelecendo o item como o primeiro de sua agenda nacional.
O aperfeiçoamento da legislação cambial também entrou na lista de prioridades de Furlan, que deixou a platéia perplexa ao dizer que a Embraer, uma das maiores exportadoras brasileiras, gasta R$ 150 milhões ao ano em intermediação financeira com a compra e venda de divisas. A empresa tem de converter em reais os dólares recebidos por suas vendas externas e tem de converter os reais em dólares para pagar fornecedores.
"Será possível que numa economia que gera US$ 45 bilhões de superávit de balança comercial, que uma empresa como a Petrobras não pode ter uma conta em dólares?", questiona. Para Furlan, a legislação cambial, de 1937, foi elaborada em período de escassez de divisas. A situação, hoje, é outra. Por isso é preciso aperfeiçoar a lei.
A lista do ministro estabelece ainda a modernização do sistema tributário ("temos uma carga tributária alta, de uma complexidade extraordinária"), a redução da burocracia na abertura e no fechamento de empresas e a ampliação da capacidade de inovação e geração de tecnologia como forma de diferenciar o Brasil de outros países exportadores apenas de commodities. "Sem isso (a inovação, a criatividade), poderemos retroceder, perdendo espaço nos mercados mundiais em produtos de valor agregado e voltando a ser um fornecedor de matérias-primas."
A questão sobre que tipo de país exportador o Brasil quer ser também surgiu na apresentação feita pelo ex-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Enrique Iglesias, hoje na Secretaria Geral Ibero Americana. Segundo ele, o país pode se encaixar no modelo da Ásia, que vê a América Latina como fornecedora de matérias-primas, ou no europeu, que propõe uma pauta de produtos de maior valor agregado.
Uruguaio, Iglesias mostrou um quadro muito mais otimista do Brasil do que o apresentado por João Paulo dos Reis Velloso, ex-ministro e organizador do Fórum. Velloso fez críticas duras ao "circo de horrores" que o país atravessa na política e na segurança e convocou os brasileiros de "boa fé" a se mobilizar contra o que não é mais tolerável. "Somos nós, brasileiros de boa fé, que escolhemos direta ou indiretamente os titulares do Executivo, Legislativo e Judiciário. Vamos cassar o mandato dos congressistas que foram salvos da cassação pela pizza", disse, em pleno auditório do BNDES, diante dos representantes do governo.
Logo depois de Velloso, Furlan iniciou a palestra com uma espécie de resposta: "Obrigado pela oportunidade de estar aqui e de conviver durante 40,5 meses no conselho de administração do banco. Como o senhor sabe, esta é uma casa de brasileiros de boa fé. Espero que, como seu contrato foi renovado recentemente, o senhor continue conosco", devolveu Furlan.